Educação como princípio de Vida
A educação democrática enfrenta ataques ligados à desigualdade, ao autoritarismo e à mercantilização do ensino. Valorizar professores, pensamento crítico e acesso universal significa defender cidadania, justiça social e democracia.
Maria Inês Fini
Campinas, São Paulo – 07/05/2026
4.8 Minutos
A educação, desde suas raízes filosóficas na Antiguidade, nunca foi apenas um mecanismo de transmissão de conteúdos. A própria origem da palavra latina educere — “conduzir para fora”, “colocar em um caminho” — revela uma dimensão ética, política e civilizatória do ato de educar. Em diferentes períodos históricos, educar significou preparar sujeitos para viver em sociedade, compreender o mundo e participar da vida pública.
Por isso, quando observamos os ataques contemporâneos à educação pública, aos professores e às universidades, não estamos diante de fenômenos isolados ou meramente administrativos: trata-se de uma disputa profunda sobre o modelo de sociedade que desejamos construir.
Na Grécia clássica, Sócrates e Platão defendiam, ainda que dentro dos limites de sua época, uma formação voltada ao pensamento crítico e à vida coletiva. Já os sofistas, associados muitas vezes às elites aristocráticas e aos interesses da retórica do poder, compreendiam a educação como ferramenta de distinção social e preparação para o comando político e militar. Essa tensão histórica permanece viva ainda hoje, no século XXI.
Nos países marcados pelo capitalismo financeiro contemporâneo, especialmente sob forte influência do modelo norte-americano, observa-se a transformação gradual da educação em mercadoria. A escola deixa de ser compreendida como direito universal e passa a ser tratada como serviço-ferramenta competitivo. Nesse cenário, cresce a ideia de que o acesso ao conhecimento deve obedecer à lógica do mercado: quem pode pagar recebe mais oportunidades; quem não pode, adapta-se às limitações impostas pela desigualdade social.
É nesse contexto que se expandem determinadas formas de privatização educacional, o avanço descontrolado de modelos de ensino à distância precarizados e a valorização de estruturas escolares altamente disciplinadoras, como algumas experiências militarizadas. Não se trata de negar a importância da disciplina, da organização institucional ou mesmo das tecnologias educacionais. O problema emerge quando tais mecanismos substituem o pensamento crítico, a liberdade pedagógica e a formação humanística por modelos baseados apenas em obediência, produtividade e treinamento funcional.
No Brasil, essa discussão torna-se ainda mais delicada devido à histórica desigualdade social herdada de séculos de escravidão, concentração de renda e exclusão educacional. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabelece, em seu artigo 205, que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, ao preparo para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho. Ou seja: a educação brasileira possui fundamento constitucional democrático e emancipador.
Entretanto, movimentos políticos ligados à extrema direita internacional passaram, nos últimos anos, a tratar escolas e universidades como espaços de “ameaça ideológica”. Professores passaram a ser alvo de perseguições simbólicas e campanhas de desmoralização pública. Em muitos casos, disseminou-se a falsa ideia de que educadores críticos seriam inimigos da família, da religião ou da pátria. Trata-se de uma estratégia conhecida historicamente: enfraquecer o pensamento crítico para fortalecer projetos autoritários de poder.
Ao mesmo tempo, assistimos à precarização crescente das carreiras docentes. Baixos salários, excesso de trabalho burocrático, desvalorização profissional e adoecimento psíquico afastam jovens talentosos da profissão. Nenhum país que tenha alcançado alto desenvolvimento humano desvalorizou seus professores. Pelo contrário: experiências educacionais reconhecidas internacionalmente, como as da Finlândia, do Canadá e da Coreia do Sul, demonstram que investimento contínuo na formação docente, valorização salarial e autonomia pedagógica são pilares fundamentais para a melhoria da educação pública. Como extensão cuja consequência lógica é o desenvolvimento do próprio país.
Outro aspecto importante é compreender que o ataque à educação não ocorre isoladamente. Ele frequentemente acompanha processos mais amplos de concentração econômica e radicalização política. Em sociedades fortemente influenciadas pela plutocracia — sistemas nos quais o poder econômico exerce influência desproporcional sobre as decisões políticas — a educação crítica pode ser vista como obstáculo à manutenção de privilégios.
Afinal, cidadãos bem formados questionam desigualdades, exigem transparência e defendem direitos sociais.
Por isso, defender a educação pública não é apenas defender escolas. É defender democracia, mobilidade social, ciência, cultura e dignidade humana. Uma sociedade que humilha seus professores compromete o próprio futuro. Uma nação que reduz a educação a treinamento técnico imediato renuncia à capacidade de formar cidadãos conscientes, criativos e capazes de interpretar criticamente a realidade.
Como gestora pública comprometida com os princípios constitucionais, acredito que o desafio contemporâneo seja reconstruir o pacto social em torno da educação como bem comum. Isso exige financiamento adequado, combate às desigualdades regionais, valorização efetiva dos profissionais da educação e fortalecimento das universidades públicas e institutos de pesquisa. Exige também proteger a liberdade de ensinar e aprender, princípio igualmente assegurado pela Constituição brasileira.
Educar continua sendo “colocar em um caminho”. A pergunta decisiva é: em qual caminho desejamos conduzir nossas futuras gerações? O da competição extrema, do medo e da submissão? Ou o da cidadania, da justiça social e da construção coletiva do conhecimento? A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro da educação brasileira, mas o futuro da própria democracia, e o nosso.
Maria Inês Fini – Doutora em Educação, pedagoga, professora e pesquisadora de Psicologia da Educação, Psicologia do Desenvolvimento e Social, especialista em Currículo e Avaliação. Fundadora da Faculdade de Educação da UNICAMP (1972-1996) – Ex. presidente do INEP.

