Vamos Fazer Almanaques? Como assim?
Qual o melhor alimento\dica não pode faltar à mesa diária? Cadê a dica? Sobrevivente em Portugal há pelo menos 300 anos, o gênero literário é a expressão da força da língua e de suas ferramentas de dispersão mundos afora, tempos afora. Sistema nervoso central da cultura, alma e espírito que se formam e se transmitem à despeito das miscigenações pela comunicação escrita.
São Paulo, 06/05/2026
4,6 Minutos.
“Informações sobre o tempo/pesca/agricultura/astrologia – transmitir coisas simples e úteis, visando ao bem-estar do homem, preveni-lo contra adversidades, anunciar-lhe bons tempos para o plantio, para a colheita, para os empreendimentos. Contar-lhe os segredos dos astros, os mistérios contidos nos velhos alfarrábios, as lendas e os fatos do passado, as ocorrências do presente, alguma coisa segura sobre o futuro à base da marcha da ciência.”
[N.E.: Eu que joguei Farmville (game) e projetei outros jogos eletrônicos os vejo prosperar no espaço virtual de forma fria, a desenvolverem-se quase que sem a minha presença, e, seguramente, sem alma alguma, ou, se a houver ei-la contida também na frieza das combinações binárias, enclausurada do tipo códigos: if, go, then, else… Almanaques não. Eles têm alma ou carregam muitas e as põe em contato, umas com as outras, diariamente e de forma simples, quase direta, numas poucas letras em forma de código – a escrita da e na língua.]
Vamos Fazer Almanaques? Como assim?
Faz a ponte em 40 páginas, no máximo, contando capa, contra capa e, quem sabe – modernidades -, algum encarte publicitário. É um pequeno ser/estar vivo, simples, básico, como aquelas invenções que perpassam o tempo a demonstrar: jamais perderão utilidade.Resistem às guerras, às pragas e ajustam-se ao próprio caminhar, companhia das horas em qualquer estação, desde que ainda existam papel jornal, tinta para impressão e a vontade humana de se comunicar.
Vamos Fazer Almanaques? Como assim?
Atravessando tempo e desertos
Frutos de cultura secular, os almanaques, termo de origem árabe – Al manakh – eram uma espécie de calendário que continha datas e indicações importantes para as pessoas que viviam da agricultura. Mesmo nas cidades, como as fases da lua, os solstícios de verão, os dados astronômicos etc. Há relatos que datam sua chegada em Portugal por volta dos 1500, pelas mãos de um astrônomo estudioso de origem semita, um estudioso pesquisador na Universidade de Salamanca (criada durante o califado Omíada de Córdoba).
Bom saber que naquela época os primos se respeitavam. Era o tempo em que o predomínio da cultura árabe na região era definitivo. Perseguido pela inquisição espanhola – braço ideológico e cruel da guerra católica romana cristã no combate à força das culturas árabe e semita no sul da Europa, Abrão bem Samuel Zacuto transferiu-se para Portugal e prestou importantes serviços ao rei Dom João II. Anos depois foi novamente perseguido e expulso pela inquisição católica romana portuguesa e mudou-se para Damasco, capital da Síria onde faleceu.

No período em que esteve em Portugal, mais precisamente na cidade de Leiria, publicou o seu Almanaque Perpétuo, logo traduzido para o latim e o castelhano (espanhol de Castella), servindo como guia e referência para as viagens de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral que buscavam chegar às Índias pelos oceanos, já que o império bizantino e as rotas por terra estavam bloqueadas pelas conquistas otomanas.
Vamos Fazer Almanaques? Como assim?
Claro, os navegadores venezianos já haviam disponibilizado seus mapas – portolanos – muito úteis para vencer desafios das rotas marítimas nas costas africanas do Atlântico e do Índico. Navegadores chineses também colaboraram nesta indicações e dicas de segurança.
Atualmente, no Brasil, os almanaques têm funções variadas. Publicados anualmente carregam ainda em sua essência as dicas do dia a dia sobre a saúde, alimentação e cuidados básicos, previsões astrológicas, reportagens de conteúdo variado, como recreação, humor, ciência e literatura e eventualmente, algo sobre a ciência milenar da Astronomia.
[N.E.: tenho a impressão que a versão americana, em língua inglesa se chama Read Digest – leitura ligeira, um digestivo para depois do almoço ou da janta. Mas,posso estar enganado. Outra informação, mais confiável e muito mais próximo a nós brasileiros, diz de um conto escrito por Machado de Assis – a um clique a ser lido aqui. Mas, ainda posso estar enganado.]
Quer saber mais? Procure e leia em Academia.edu: In FOLKCOMUNICAÇÃO EM PORTUGAL: um estudo sobre a prosa, saber popular e conhecimento científico dos almanaques portugueses.
Sonia Regina Soares da Cunha – Professora Universitária – USP – UFRN – Doutora em Comunicação: Tecnologia, Cultura e Sociedade pela Fundação Ciência e Tecnologia de Portugal ( CECS/UMinho). Mulheres
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