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Micro ensaio crítico: guerra e panfletos

Micro ensaio crítico: guerra e panfletos

Micro ensaio crítico: guerra e panfletos

A guerra que chega pelo wifi como propaganda e traz pânico e insegurança; funciona como o panfleto moderno. Mas, muitas bombas, mísseis, drones, tiros e armas de grosso calibre e de destruição em massa ainda estão no menu.

Quando a guerra vinha do céu, do alto de aviões militares (Europa de 1938 a 1945), milhões de panfletos foram lançados sobre vilarejos, cidades sitiadas e fronteiras durante longos anos dos séculos XX e XXI. Durante aSegunda Guerra Mundial, os países ditos aliados despejaram 6 bilhões de panfletos apenas sobre a Europa. No Vietnã (EUA sob a presidência do republicano Richard Nixon) o número ultrapassou facilmente 50 milhões.

Cada papel tinha um objetivo simples: quebrar a moral, criar pânico, induzir rendição ou legitimar a ocupação.

Os textos eram diretos, sensacionalistas e persuasivos. A fórmula era clara: “Seu governo não pode protegê-lo. As forças invasoras vão trazer ordem. Resistir é inútil.” O céu se tornava uma tipografia e distribuidora bélica. Mas algo mudou.

Se antes os governos precisavam de aviões e pilotos, gráficas, papel, tinta, agora basta um bot, uma rede de contas falsas, ou uma IA capaz de gerar 10 mil textos ou imagens por minuto. As operações de desinformação atuais funcionam como os panfletos antigos — mas multiplicados pela velocidade e pela invisibilidade do algoritmo.

A verdade é a primeira que morre.

A lógica é a mesma. O poder, não. Desde a era colonial (a antiga) a China, no século XIX: o panfleto colonial, durante as Guerras do Ópio, a Grã-Bretanha e outras potências inundavam a China com panfletos justificando a guerra. Diziam que estavam ali para: defender o “livre comércio”; proteger cidadãos estrangeiros; civilizar a China e restaurar a ordem.

Enquanto isso, impunham tratados desiguais, tomavam portos e ampliavam o comércio forçado de ópio, e ainda cobravam impostos da China. A propaganda vinha do céu como chuva tóxica. Era a ideologia do imperialismo impressa em papel.

Na América Latina do século XXI somos inundados por panfletos de silício. Hoje, na América do Sul — especialmente no Caribe frente à Venezuela — a retórica mudou, mas a estrutura é idêntica. O discurso moderno diz: “é a guerra ao narcotráfico, a defesa da democracia, proteção dos direitos humanos, neutralização de ameaças transnacionais”. Mas, os EUA estão falando deles mesmos. Eles querem o monopólio da produção, distribuição e o controle do negócio bilionário.

A presença militar, o acúmulo de bases, a interferência política e as operações de informação revelam um objetivo maior: controlar narrativas e posições estratégicas, como se fazia na China do século XIX.

Só que, em vez de panfletos caírem do céu, acontecem enxurradas de fake news, deepfakes, dossiês falsificados, campanhas de medo e boatos fabricados para viralizar nas redes sociais e pelos mecanismos( empresas) de difusão de notícias; TVs, jornais, revistas…

O “panfleto moderno” – um exemplo – Imperialismo eletrônico.
PROPAGANDA2 Micro ensaio crítico: guerra e panfletos
Ao estilo de tio Sam – Brasil 2020.

Façamos uma ilustração conceitual — não de um panfleto antigo, mas de como seria seu equivalente digital de 2025 ou 2026. Este é o tipo de peça que apareceria como post, tweet, sticker de WhatsApp ou vídeo curto impulsionado por bots:

Assim, um vídeo vazado mostra altos oficiais envolvidos com narcotraficantes (link suspeito). Compartilhe para salvar vidas. Fique do lado certo da história. A liberdade está próxima. Deus, pátria e família. Juntos numa hashtag: ResgateInternacional #FimDaTirania #ForçasAliadas

Se você prestar atenção vai perceber que o texto é emocional, rápido, com apelos de urgência, supostas provas vazadas, hashtags e chamadas virais. É exatamente assim que se constrói um panfleto digital — perfeito para uma guerra de informação.

O que mudou considerando a manipulação coletiva e a manipulação individual? Basicamente, o panfleto de papel atingia todos igualmente, mas o panfleto moderno atinge você. É personalizado, os bots das bigtechs recolhem têm seus dados, a sua idade, cidade, medos, histórico de buscas, vulnerabilidades emocionais, preferências políticas. É propaganda cirúrgica, direcionada, silenciosa e invisível. Você sente que está sendo observado? Tratado como um anestesiado pelo BBB – pronto para ser invadido.

A guerra não precisa mais de tiros — basta confusão que gere ignorância.

Antes, a propaganda preparava o terreno para tropas terrestres. Hoje, ela substitui as tropas, derruba governos sem disparar armas, cria caos interno suficiente para gerar crises, fragmenta sociedades de dentro para fora, manipula eleições, paralisa instituições.

A guerra de informação é a guerra. Se pudermos concluir algo: estamos dentro do campo de batalha e não percebemos. Quando os aviões jogavam panfletos sobre os europeus ou sobre os vietnamitas, eles sabiam que estavam sendo alvo. Hoje, somos alvos sem saber.

O panfleto moderno chega como uma mensagem que “todo mundo está compartilhando”(e te convida a disparar também: espalhe!) um vídeo “vazado” um meme aparentemente inocente, um influenciador opinando com convicção, um texto gerado por IA (um tanto como este!) e com aparência de artigo jornalístico, um boato que parece verdade. A propaganda deixou o papel. Abandonou os aviões. E entrou nos bolsos, nos bolsos e na cabeça da população — 24 horas por dia.

Melvor Groë – Professor aposentado

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