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Educação sem Donos

Educação sem Donos

Educação sem Donos

A educação contemporânea encontra-se em um estado de sítio ideológico. O que antes era compreendido como o espaço sagrado da formação humana e do desenvolvimento do pensamento crítico transformou-se, em grande medida, em um prolongamento das trincheiras das guerras culturais.

O dilema que enfrentamos hoje — a pressão para que a escola e a universidade se tornem veículos de pautas de direita, esquerda ou identitárias — ecoa, com precisão quase profética, o histórico embate entre Jean-Paul Sartre e Albert Camus. Ao observarmos a educação por meio dessa lente filosófica, percebemos que o que está em jogo não é apenas o currículo, mas a própria natureza da liberdade.

O debate histórico entre Albert Camus e Jean-Paul Sartre no início da década de 1950 prefigura quase todos os dilemas da instrumentalização ideológica da educação e do pensamento. Para Jean-Paul Sartre, o intelectual (e, por extensão, o educador) não tinha o direito de se omitir. Em sua visão de “engajamento”, a neutralidade era uma farsa burguesa.

Se a educação ocorre dentro de um contexto histórico de opressão, ela deve necessariamente tomar partido para transformar o mundo. Sob essa lógica, a instrumentalização do ensino é vista não como um vício, mas como um dever ético:

No cenário atual, essa herança sartreana manifesta-se em pautas que exigem que o conhecimento seja submetido à eficácia política. Seja na pauta identitária, que por vezes reduz a complexidade humana à dinâmicas de poder, ou em visões de mundo que priorizam a “militância” sobre o rigor metodológico. De fato, o risco é o mesmo: o sacrifício da verdade no altar da causa.

Quando a educação se torna puramente sartreana, o aluno deixa de ser um buscador da verdade para se tornar um “agente de transformação” pré-programado, cujo pensamento já foi decidido antes mesmo do início da aula.

Em oposição a esse pragmatismo ideológico, Albert Camus oferece o conceito da “medida” (la mesure). Para Camus, a revolta contra a injustiça é necessária, mas ela deve ter um limite: a dignidade do outro e a fidelidade à realidade. Em seu rompimento com Sartre, Camus argumentou que nenhum fim justifica os meios, se esses meios corrompem a verdade ou desumanizam o adversário.

Quem precisa de santos ou heróis?

Transposta para a educação, a filosofia camusiana propõe uma escola que é, por definição, um espaço de limite. Ela se recusa a ser instrumentalizada por pautas de direita, que desejam reduzir o ensino a um treinamento tecnocrata e moralista, e por pautas de esquerda ou identitárias que buscam transformar a sala de aula em um tribunal de consciência.

A “educação da revolta” em Camus não forma soldados, mas indivíduos lúcidos. É a educação que ensina o aluno a dizer “não” tanto ao opressor quanto ao revolucionário que deseja se tornar o novo senhor da verdade.

A crise atual do ensino brasileiro e global reside na vitória temporária da eficácia sobre a contemplação. À direita, a instrumentalização busca uma educação “útil”, focada em competências de mercado e na preservação de valores tradicionais sem o devido escrutínio crítico. É a tentativa de fazer da escola um espelho do status quo.

À Esquerda e suas vertentes identitárias, a instrumentalização busca a “justiça social” por meio da curadoria de fatos e da imposição de léxicos que, embora bem-intencionados, podem se tornar dogmáticos e intolerantes ao pluralismo.

Do “a luno” a quem professa: a luz da liberdade!

O resultado é uma escola – e em extensão o professor – que perdeu sua autoridade porque perdeu sua independência. Quando os pais e a sociedade percebem que o ensino foi capturado por um “partido” (seja ele qual for), a confiança na instituição desmorona. O professor, em vez de ser o mestre que abre caminhos, passa a ser visto como um sargento ideológico.

Uma educação livre de instrumentalização não é uma educação indiferente aos problemas do mundo, mas uma educação que confia na inteligência do aluno. Inspirados por Camus, devemos defender uma pedagogia da lucidez:

Para que a educação se consolide como um exercício de lucidez inspirado na ética de Camus, é fundamental estabelecer a primazia do objeto sobre a ideologia. Que garanta o ensino da biologia, da história ou da literatura, dentre tantas disciplinas, respeite a autonomia técnica e científica desses campos, sem que a realidade seja torturada para se ajustar a narrativas políticas preestabelecidas.

Para onde devemos ir?

A educação está na encruzilhada entre o engajamento cego de Sartre e a revolta lúcida de Camus. Se permitirmos que a escola continue sendo o campo de batalha da guerra cultural, terminaremos com uma geração de militantes ruidosos, mas intelectualmente frágeis.

O resgate da educação exige a coragem de ser “camusiano” em um tempo de extremismos “sartreanos“. Significa proteger a escola contra a instrumentalização, garantindo que ela permaneça como o território em que a busca pela verdade é o único norte absoluto.

Somente uma educação que se recusa a ser arma de guerra pode, de fato, libertar o ser humano. Como diria Camus, é preciso servir ao homem e à beleza, recusando-se a servir aos carrascos, mesmo àqueles que prometem o paraíso na terra.

Jorge Miklos – Psicanalista Junguiano e Professor


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Psicólogo clínico, psicoterapeuta analíticio integrativo. Graduado em História, Ciências Sociais e Psicologia. Ms. Ciências da Religião - Dr. Comunicação PUC-SP). PhD Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade (UFRJ). Atua na interface entre Psicologia Analítica, Espiritualidade e Cultura. Autor de vários livros.