A Trava das altas Taxas de Juros
SELIC15% TRAVA GOVERNO – FAMÍLIAS – EMPRESAS E DESENVOLVIMENTO – A insistência prolongada na manutenção de uma taxa de juros em quase 15% – e a Taxa Real acima de 10% , sob a alegação de combate a inflação produz uma exponencial transferência de renda de todos os setores para minoritários rentistas de capital não produtivo/especulativo da sociedade.
Lucio Maluf
São Paulo, 14/05/2026
5.4 Minutos.
A manutenção, por longo prazo, dessa aberração ampliou significativamente o endividamento e funciona como o próprio realimentador desse processo. Culminando portanto, como o principal gerador dos déficits fiscais e da ampliação do endividamento das famílias e das empresas. Ao mesmo tempo desestimula os investimentos produtivos.
Importa lembrar que o Brasil necessita de um crescimento do PIB duradouro e constante em torno de 4 a 5%, a fim de diminuir a distância que o separa da média dos países desenvolvidos. *
*[N.E.: Previsão para 2026 – IBGE mostra números e comparações nas tabelas – Bco.Central, Min.Fazenda, FMI debatem números e variações para este ano].
Para tanto, o país precisa da renda das famílias e das empresas não estranguladas pelos juros elevadíssimos. Com o consequente endividamento e a inadimplência, aliados à construção de poupança compatível e direcionada para fomentar os investimentos produtivos, torna-se incompatível um largo período de uma taxa de juros excessivamente contracionista e endividadora.
Essa situação dos juros é tão difícil de ser aceita que nos leva a considerar ser na verdade um “projeto racionalmente elaborado” com a finalidade explícita de realizar uma mega e continuada transferência- concentradora de renda .
Precisa desenhar?
Para ilustrar essas considerações, é importante refletir sobre a execução orçamentária de 2025 que registrou dispêndios da ordem de 42.24% , para atender exclusivamente compromissos com juros e amortizações da dívida. Cerca de apenas 13% derivou para Saúde, Educação e Assistência Social.
Ou seja, a dívida fortemente alimentada pela taxa de juros consumiu R$ 2.13 Trilhões de um orçamento de 5.054 Trilhões de Reais.
Outra alegação igualmente recorrente do financismo neoliberal é que a dívida se encontra em valores muito elevados e que corre o risco de o governo não conseguir administrá-la. Essa alegação também encontra uma contrapartida robusta que a descredencia, quando analisamos os mecanismos de segurança mantidos pelo governo.
Trata-se, portanto, do “Colchão de Segurança”, mantido para eventuais situações de imprevisibilidade, atualmente em torno de R$ 800 Bilhões, o que garante os compromissos por vários meses em caso de dificuldades. Outro seguro robusto é constituído pelas “Reservas Internacionais”– em torno de U$ 360 Bilhões, equivalentes, no momento, a cerca de R$ 1,8 Trilhões, aplicados em grande parte em títulos da dívida americana.
Não mexam no meu Baú
Se somarmos esses dois mecanismos de segurança, teremos um total de 2.6 Trilhões de Reais, equivalentes a cerca de 21% do PIB, estáticos e disponíveis para atender qualquer situação adversa na economia, ou na administração, com reflexos na segurança das contas públicas e nossa economia.
Entretanto, com grande dificuldade de aceitação, constatamos que o país precisa urgentemente de um vigoroso projeto de desenvolvimento, orgânico e estruturante, mas que vem sendo penalizado e mesmo impedido de realizá-lo. Isso se dá, em grande medida, pela taxa de juros contracionista, mesmo com reservas da ordem de 21% do PIB.
Valores calculados em torno de R$ 3 trilhões, destinadas exclusivamente à segurança dos beneficiários da dívida. Alocados em detrimento da utilização de parte dessa poupança estática para implementar o desenvolvimento que gere benefícios para a sociedade como um todo.
Apenas como um exercício. Poderiam separar 50% dessa poupança estática e pouco rentável para constituir um fundo soberano dinâmico. Aplicado ao Fundo Nacional de Desenvolvimento administrado pelo BNDES, com a finalidade de apoiar projetos estruturantes nas áreas de Conhecimento/ Ciências, Infraestrutura, Produção etc.
O dinheiro cresce se aplicado corretamente nos lugares certos. Onde precisa?
Esse fundo já nasceria com recursos da ordem de 10.5% do PIB, ou seja 1. 3 Trilhão de Reais e poderia receber outros recursos de aplicações advindas, por exemplo, de fundos de pensão. Por outro lado, a elevada Taxa de Juros precisa ser analisada, também, em suas implicações no aumento da dívida.
Estima-se que cada ponto percentual da Taxa Selic produza um custo adicional de cerca de R$ 60/70 Bilhões. Assim, num exercício simples, caso a Taxa de Juros retornasse ao patamar de 12%, estima-se que o governo economizaria algo em torno R$ 180/200 Bilhões/Ano, o que seguramente seria superior ao déficit estimado, podendo inclusive produzir algum superávit .
Portanto, ainda poderia ser possível caminhar para uma taxa menos contracionista, adotando uma meta de inflação e uma meta de juros reais mais compatíveis com os robustos mecanismos de segurança financeira existentes. Ou seja, mais alinhada com a maioria das maiores economias do mundo.
Nesse caso, ainda como exercício, não seria absurdo buscar uma Taxa Selic de 10/10.5%, com Juro Real 6/6.5%, caso a inflação permaneça entre 4/4.5%. Assim, seria possível uma economia adicional de cerca de R$ 90/120 Bilhões/Ano, que poderia se constituir em poupança direcionada para o fundo de desenvolvimento.
Resultados negativos
Portanto, é importante considerar o endividamento da população. Montante que atinge atualmente mais de 81 Milhões de inadimplentes, cujo juro médio está além dos 60%, com valores acumulados de cerca R$ 287 Bilhões.
Estima-se que cerca de 29% da renda destas pessoas estejam comprometidas com dívidas. Este fato restringe fortemente a capacidade de consumo, com reflexos importantes e imediatos na qualidade de vida. Além disso, em relação às empresas, o endividamento é igualmente perverso. São 8.7 Milhões de CNPJs endividados com valores negativados da ordem de R$ 223 Bilhões.
Ao final, fica clara a relação entre a indefectível taxa de juros superelevada e o endividamento das famílias, das empresas e do estado. Os reflexos na contração do consumo, na produção e nos investimentos revelam o evidente sequestro e transferência de renda do conjunto da sociedade para a minoria de detentores do capital rentista/especulativo.
Lucio Maluf – Secretário de Organização PDT/SP – Membro do Diretório Nacional
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