×

Mercado Externo X Mercado Interno

Mercado Externo X Mercado Interno

A diferença de rentabilidade entre empresas exportadoras de commodities e empresas da indústria voltada à exploração do mercado doméstico no Brasil está ligada à estrutura produtiva do país e à renda de recursos naturais. Esse fenômeno ajuda a entender vários debates sobre desindustrialização precoce e especialização produtiva.

Assim, em setores baseados em recursos naturaismineração, petróleo, agronegócio — parte do lucro não decorre apenas de eficiência produtiva, mas da escassez relativa de recursos naturais. Isso é conhecido na tradição da Economia Política como renda diferencial, conceito formulado por David Ricardo.

A lógica é simples: países com terra fértil, minérios abundantes ou petróleo de baixo custo conseguem produzir com custo menor diante do preço internacional. Por sua vez, o preço global é determinado pelo produtor marginal (o de maior custo); quem tem custo menor captura uma renda extraordinária. Ou seja, ela vem de recursos naturais. Mercado Externo X Mercado Interno

São exemplos brasileiros de sua origem o minério de ferro produzido pela Vale S.A., o petróleo extraído pela Petrobras no pré-sal e a soja produzida por grandes produtores no Cerrado. Em muitos períodos, esses setores operam com margens operacionais muito elevadas.

O primeiro é a escala e a produtividade natural. Grandes jazidas ou extensões agrícolas permitem produção em larga escala. Isso reduz o custo médio e o custo marginal. Portanto, a diferença entre custo e preço internacional vira lucro.

O segundo é porque os preços são determinados no mercado mundial. As exportadoras vendem a preços formados em mercados globais como Chicago Mercantile Exchange e London Metal Exchange. Ou seja, esses preços não dependem da renda doméstica brasileira, ou seja, mesmo com recessão interna a exportadora mantém receita elevada. Mercado Externo X Mercado Interno

O terceiro é o câmbio. Quando ocorre desvalorização da moeda nacional, as receitas em dólar sobem em reais. Como muitos custos permanecem em moeda local, isso eleva margens operacionais.

O quarto é a intensidade de capital relativamente baixa em certos casos. Agronegócio e mineração usam muito capital, porém, a vida útil longa dos ativos e a grande produção anual diluem os custos fixos.

O ninho dos problemas em Mercado Externo X Mercado Interno

A indústria doméstica tem margens de lucro menores. Enfrenta restrições estruturais: mercado interno mais limitado, concorrência de importados, custos financeiros elevados, escala menor e cadeias produtivas incompletas. Além disso, preços industriais não são determinados globalmente da mesma forma como os de commodities. Assim, as margens se reduzem.

Quando setores exportadores de recursos naturais têm rentabilidade muito superior, o capital tende a migrar para eles. A moeda nacional pode se apreciar em ciclos de boom e, nesse caso, indústria perde competitividade.

Esse mecanismo é conhecido como “doença holandesa”, termo popularizado após o boom de gás na Holanda nos anos 1960. Daí alguns economistas novo-desenvolvimentistas se precipitam ao afirmarem ser a causa da desindustrialização brasileira. Mercado Externo X Mercado Interno

Como consequência macroeconômica, o país passa a apresentar estrutura produtiva com três polos: setor primário exportador muito rentável, indústria relativamente frágil e sistema financeiro nacional desenvolvido para pagamentos, inclusive digitais, enriquecimentos e financiamentos.

Esse padrão é típico de economias ricas em recursos naturais, mas aqui o regime de alta inflação, em vigor durante décadas, estimulou a agilidade tecnológica no circuito do dinheiro.

Levar vantagem é um dilema paradoxal, certo?

Há relação com a taxa de juros porque se uma empresa consegue retorno operacional de 20–30% ao ano, ela pode tomar dívida corporativa com juros na faixa de 10–15% a.a. Assim, pode ampliar a escala de produção e aumentar o retorno sobre o capital próprio. Isso explica por qual razão grandes exportadoras operam com alavancagem financeira, inclusive com endividamento externo mais barato.

A renda de recursos naturais pode gerar grandes superávits comerciais, empresas muito lucrativas, mas não garante diversificação produtiva. Esse é justamente o dilema histórico de várias economias exportadoras de commodities. Mercado Externo X Mercado Interno

Na realidade, a rentabilidade das exportadoras brasileiras muitas vezes supera a das multinacionais industriais, atraídas para explorar um mercado interno de porte superior ao de outros países fora do ranking dos dez maiores PIBs, territórios e populações.

O aparente paradoxo — exportadoras de commodities brasileiras com rentabilidade superior à de multinacionais industriais instaladas para atender o grande mercado interno — decorre da interação entre estrutura de preços internacionais, custo relativo de produção e características do mercado doméstico.

Agro – mineração X industrialização – é a jogada da vez?

Podemos entender isso em cinco mecanismos estruturais. O primeiro é a renda de recursos naturais, devido à vantagem locacional. Empresas exportadoras brasileiras exploram recursos naturais escassos globalmente, mas abundantes no território nacional. Ou seja, minério de ferro de alto teor (explorado pela Vale S.A.), petróleo de baixo custo relativo no pré-sal (extraído pela Petrobras) e produção agrícola em grande escala (o tal agro pop?)

Quando o preço internacional é determinado pelo produtor marginal global, produtores com custo muito inferior capturam renda diferencial. O resultado, portanto, são margens operacionais elevadas, alta geração de caixa e rentabilidade superior à média industrial. Mercado Externo X Mercado Interno

Exportadoras vendem a preços definidos em mercados globais. Refletem a demanda global, a escassez de recursos e os ciclos internacionais de commodities. Já multinacionais industriais no Brasil vendem em um mercado doméstico competitivo e sensível à renda. Portanto, a consequência é: têm menor poder de precificação e margens comprimidas.

Quanto à estrutura tributária e regulatória, empresas exportadoras possuem vantagens institucionais como a desoneração de exportações (“Lei Kandir”), incentivos fiscais regionais e logística integrada para exportação. Já multinacionais industriais enfrentam cumulatividade tributária, complexidade regulatória e custos logísticos elevados. Esses fatores reduzem a rentabilidade industrial.

Nós – apertados

Apesar de o Brasil possuir um dos maiores mercados do mundo (entre os dez maiores PIB PPC), ele apresenta características capazes de comprimirem  das margens industriais. Dentre elas, a elevada desigualdade de renda, grande parcela da população com baixo poder de compra e ciclos frequentes de recessão. Assim, multinacionais instaladas no país (por exemplo, a indústria automobilística) muitas vezes operam com capacidade ociosa, competição intensa por preços e margens menores. Mercado Externo X Mercado Interno

Setores extrativos podem apresentar investimentos iniciais muito elevados e custos marginais relativamente baixos após a implantação. Quando a produção atinge escala plena, a rentabilidade operacional aumenta significativamente.

Outro fator decisivo é o câmbio. Quando o real se desvaloriza, receitas das exportadoras (em dólar) aumentam em reais e muitos custos permanecem domésticos. Isso amplia margens. Entretanto, multinacionais industriais dependem mais do mercado interno e de insumos importados.

Como consequência estrutural, esse diferencial de rentabilidade gera um viés estrutural de alocação de capital. Os recursos financeiros migram para setores exportadores de commodities e a indústria enfrenta menor atratividade relativa.

Mercado Externo X Mercado Interno

d*Esse processo contribui para fenômenos como especialização produtiva, desindustrialização precoce e dependência de commodities. Exportadoras brasileiras podem ser mais rentáveis diante das multinacionais industriais porque capturam renda de recursos naturais, vendem a preços globais mais elevados, enfrentam menos compressão competitiva de margens, se beneficiam do câmbio e operam em escala internacional.

Profº. Dr. Fernando Nogueira da Costa – Titular de Economia – IE-UNICAMP

*[N.E.: E quanto os grandes do agro pagam de impostos? O que devolvem para o país e sua população da classe trabalhadora? Podemos sim, falar de concentração de renda? E com a mecanização operacional: máquinas que preparam a terra, plantam, colhem, ensacam a produção e a logística do transporte? O que fica aqui – consumo interno e a que preço? O que é exportado volta com sobre peso de valor agregado. E a renda média do trabalhador brasileiro não chega para adquirir produtos com valores agregados. Há quanto tempo este modelo persiste?]