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Quatro Frentes de Uma Estratégia. Um passo e guerras

Quatro Frentes de Uma Estratégia. Um passo e guerras

Quatro Frentes de Uma Estratégia. Um passo e guerras

DOSSIÊ ABERTO

Como Ucrânia, Oriente Médio e Taiwan Marcam o Retorno do Hard Power Ocidental capitaneado pelos EUA com apoio de países europeus.

Da era da persuasão à era da dissuasão

Durante as primeiras décadas do século XXI, a política internacional foi amplamente marcada pela valorização do chamado soft power — conceito desenvolvido pelo cientista político norte-americano Joseph Nye para descrever a capacidade de influenciar atores internacionais por meio da cultura, da diplomacia, da cooperação econômica e da atração de valores. Entretanto, os acontecimentos da última década sugerem uma mudança significativa na forma como as grandes potências ocidentais exercem influência global.

A guerra na Ucrânia, a escalada das tensões no Oriente Médio e o crescente impasse envolvendo Taiwan revelam um cenário em que instrumentos tradicionais de poder militar e coerção econômica voltam a ocupar posição central nas estratégias dos Estados Unidos e de seus aliados europeus. Portanto, mais do que episódios isolados, essas frentes compõem um quadro geopolítico que evidencia o retorno do hard power como elemento estruturante da ordem internacional.

A invasão russa da Ucrânia em 2022 acelerou essa transformação. A resposta ocidental não se limitou à condenação diplomática. Bilhões de dólares em armamentos, sistemas de defesa, inteligência militar e sanções econômicas foram mobilizados para sustentar Kiev e enfraquecer Moscou. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) recuperou protagonismo estratégico, enquanto diversos países europeus ampliaram significativamente seus gastos militares.

Paralelamente, a União Europeia, tradicionalmente identificada como uma potência normativa baseada na diplomacia e na integração econômica, passou a discutir rearmamento, autonomia estratégica e fortalecimento de sua indústria de defesa. Analistas observam que o conflito ucraniano deslocou o centro das preocupações europeias para questões de segurança territorial e capacidade militar.

Oriente Médio: diplomacia limitada, poder militar presente

No Oriente Médio, a dinâmica apresenta características semelhantes. Após décadas de intervenções militares diretas, Washington procurou reduzir sua presença terrestre na região, privilegiando mecanismos diplomáticos e econômicos. Contudo, os recentes conflitos envolvendo Israel, Irã, grupos armados regionais e a segurança das rotas marítimas demonstram que o uso da força permanece componente essencial da estratégia ocidental. O investimento americano na região é notável e redundante.

Embora os Estados Unidos tenham buscado combinar diplomacia e contenção, operações militares no Mar Vermelho e ações de dissuasão contra grupos armados reforçam a percepção de que a estabilidade regional continua dependente de demonstrações concretas de capacidade militar.

Estudos recentes indicam que a política norte-americana na região não abandonou o hard power, (bombardeou o Irã), mas passou por um processo de reequilíbrio entre instrumentos militares e não militares. A agressão foi feita a partir de bases militares americanas instaladas no lado ocidental do estreito de Ormuz, além de infiltrações de espionagem e terrorismo em território, a partir do serviço secreto israelita.

Ao mesmo tempo, potências regionais como Israel, Irã, Arábia Saudita e Turquia ampliaram sua autonomia estratégica, reduzindo a dependência de atores externos e contribuindo, aparentemente para uma configuração mais multipolar do sistema regional, ainda que não menos agressiva.

Essa realidade limita o alcance exclusivo da diplomacia e exigiu dos países ocidentais uma combinação cada vez mais sofisticada de pressão econômica, alianças militares e projeção de força. Porque China e Rússia são aliados do Irã. E até a Coreia do Norte se manifestou. O que Bush Jr. chamou de eixo do mal.

Taiwan e a disputa pelo século XXI

A terceira frente encontra-se no Indo Pacífico. Taiwan tornou-se um dos principais pontos de atrito entre Estados Unidos e China. Diferentemente da Ucrânia e do Oriente Médio, não há guerra aberta. Ainda assim, a crescente militarização do entorno da ilha e os exercícios militares chineses, reativos às provocações da frota americana e mobilização do Japão na região, indicam um ambiente de competição estratégica permanente.

Para Washington, a questão taiwanesa transcende a defesa de um parceiro regional. Trata-se da preservação do equilíbrio de poder na Ásia e da contenção da ascensão chinesa. O fortalecimento de alianças com Japão, Coreia do Sul, Austrália tornam isto claro. Quase os mesmos pontos de apoio à época da 2ª guerra mundial.

O que se debate neste caso é o emblemático exercício capitalista da China na ilha, dentro de seu mar territorial, em que grandes empresas de tecnologia desenvolvem sistemas avançados na área financeira e de serviços. Enquanto no continente se concentram indústrias, agricultura, produção de energia e infraestrutura, com notável projeção global em franca expansão. Barrar o crescimento e o fortalecimento da economia chinesa tornou-se a missão de Trump.

FrenteInvestimento estimado dos EUA
Ucrânia (2022–2026)Cerca de US$ 187 bilhões autorizados
Irã e Golfo (2026)Cerca de US$ 25 bilhões já informados ao Congresso
Mar Vermelho/IêmenAlguns bilhões de dólares
Síria e IraqueVários bilhões anuais incorporados ao orçamento do Pentágono
Total acumulado estimadoMais de US$ 220 bilhões

Números estimados e discutíveis

Entre 2022 e 2026, os Estados Unidos mantiveram ou ampliaram sua participação em cinco grandes frentes de conflito: Ucrânia, Mar Vermelho/Iêmen, Síria, Iraque e Irã. Embora a guerra da Ucrânia concentre a maior parcela dos recursos financeiros e militares, novas tensões no Oriente Médio levaram Washington a expandir significativamente suas operações na região.

Somadas, essas frentes já consumiram mais de US$ 220 bilhões em recursos autorizados ou empregados pelo governo norte-americano, configurando um dos maiores ciclos de engajamento militar externo dos EUA desde as guerras do Afeganistão e do Iraque.

Quatro Frentes de Uma Estratégia. Um passo e guerras

AMÉRICA LATINA e AMÉRICA DO SUL as que chamam de Quintal

Há evidências sólidas de que a América Latina voltou a ocupar espaço estratégico no planejamento de Washington, especialmente por quatro razões:

* contenção da influência chinesa; segurança energética e minerais críticos; combate ao narcotráfico e migrações; estabilidade do hemisfério ocidental em um cenário de competição global com China e Rússia.
A Venezuela é o epicentro regional por duas razões básicas – posição geográfica e petróleo. Com isso tornou-se novamente o principal foco de tensão hemisférica.

Nos últimos anos (e em 2026) houve aumento da presença militar norte-americana no Caribe, ou seja, operações navais e episódios de confrontação indireta envolvendo Caracas. Diversos centros de análise estratégica alertaram para o risco de escalada militar e para os custos de uma política excessivamente coercitiva. Não ocorreu.

Contudo, os EUA invadiram o país e sequestraram com apoio interno o seu presidente eleito (Nicolas Maduro). Mais de cem (100) venezuelanos foram mortos no evento.

Nos bastidores do Conselho de Relações Exteriores discutia-se a invasão com base nas conversações entre EUA e Inglaterra, por conta da disputa territorial entre Venezuela e Guyana pelo Essequibo. Assim, os fatos atraíram forte atenção dos EUA, que apoiaram diplomaticamente Georgetown (‘capital’ da Inglaterra no hemisfério Sul, além das Falkland – Malvinas ARG.), após incursões venezuelanas em áreas marítimas disputadas, alegadamente por territórios ricos em petróleo.

Retrocedendo no tempo

A disputa tem outros precedentes históricos e que se arrastam ao período colonial e as disputas entre as coroas espanhola e inglesa. As possíveis origens podem ter sido motivadas pela divisão do tratado das Tordesilhas (marco temporal) e outras implicações posteriores entre o poder do império Romano católico Latino do Ocidente e o protestante Sacro Império Romano Germânico. Obviamente, as questões iam muito além da religiosas.


CSIS – As relações da Colômbia com os EUA: aliados históricos em transição.

A relação entre Washington e a Colômbia permanece estratégica, mas passou por tensões importantes. O governo norte-americano chegou a questionar a política antidrogas colombiana e ocorreram atritos diplomáticos relacionados a segurança, comércio e cooperação militar.

Entretanto, a Colômbia continua sendo um dos principais parceiros dos EUA na América do Sul. Porém, a administração Trump, ultimamente tem provocado tensões contra o país, por conta das atitudes do presidente Gustavo Petro, que promoveu reformas populares, com melhorias na distribuição de renda e terras para as populações marginalizadas. Ou seja, qualquer governo popular na América Latina e do Sul parecem incomodar muito o sistema capitalista e neoescravagista dos EUA.

Debate intenso no Conselho de Relações Exteriores dos americanos normalmente apontam estas tendências populares, que a academia da direita cunhou de populismo de esquerda, como caminho aberto para o Socialismo/Comunismo.

Assim, Cuba, na visão dos atores de Tio Sam deve sofrer pressão permanente. A ilha revolucionária permanece como um dos poucos países da região em confronto aberto com Washington. Nos últimos anos, declarações de autoridades americanas voltaram a mencionar cenários de pressão ampliada e até hipóteses de intervenção, em caso de colapso político interno. Claro está que se tais colapsos podem ocorrer, em prazos previsíveis, o será justamente por conta do envolvimento “indireto” do estado americano e seus interesses.

E o Brasil? Aqui é importante ser cauteloso.

Não existem evidências públicas confiáveis de que os EUA tenham um plano para “atacar o Brasil” militarmente. O que existe é uma crescente preocupação de setores da diplomacia e da defesa brasileiras com o aumento da presença estratégica norte-americana no entorno regional. De fato, são estes os motivos;
*cooperação militar ampliada com o Paraguai; apoio à Guiana em meio à crise do Essequibo; monitoramento naval intensificado no Caribe; fortalecimento de acordos de segurança hemisférica.

Segundo a RSM (Revista Sociedade Militar) há algumas razões para ponderação e preocupação. Em ralação à soberania do país, e do ponto de vista da geopolítica clássica, o Brasil é visto como uma potência regional emergente. É líder natural do Mercosul, grande produtor de alimentos, detentor de recursos minerais estratégicos e da maior parte da Amazônia.

Por isso, tende a ser objeto de influência, contenção diplomática, disputas comerciais e competição tecnológica por parte das grandes potências. Contudo, isso não significa necessariamente preparação para um confronto militar.

Hipoteticamente, se Ucrânia, Oriente Médio e Taiwan representam os pontos quentes da disputa entre grandes potências, a América Latina e o Brasil representam o espaço de retaguarda estratégica onde se decide quem controlará recursos naturais, rotas logísticas, alimentos, energia e minerais críticos nas próximas décadas.

Nesse contexto, Venezuela, Cuba, Colômbia e Brasil deixam de ser apenas atores regionais para integrar a grande competição geopolítica do século XXI. Entretanto, vale afirmar que, até o momento, em que pesem as ações dos EUA na Venezuela e a tensão pré-eleitorial no Brasil, estes são pontos que pertencem mais ao campo das interpretações estratégicas do que das evidências comprovadas.

avatar ael

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política

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