A Vulgar Elite Brasileira
Nem todas as elites são produtivas para a sociedade; algumas atuam como agentes de crescimento, enquanto outras concentram-se em extrair privilégios e enriquecer às custas do Estado, fenômeno conhecido como rent-seeking. Há ‘elites’ nas diversas camadas sociais. No futebol, no empresariado, econômicas, nas ciências etc…
Luiz César Silva
Porto – Portugal, 06/06/2026
4.4 Minutos.
Neste contexto, várias elites brasileiras enquadram-se, historicamente, na segunda categoria, caracterizando-se por práticas que não estimulam inovação nem competitividade. Mas, sim pela manutenção de vantagens obtidas por compadrio, regulamentações e incentivos estatais.
Tradicionalmente, a sociedade brasileira sempre foi dominada por grupos que buscam renda fácil e privilégios, em vez de investir em educação, tecnologia ou produtividade. As elites dos países desenvolvidos promovem desenvolvimento: criam empregos, fomentam inovação, fortalecem instituições e estimulam competitividade.
Já as elites de baixa da periferia do capitalismo mundial concentram-se em obter vantagens políticas e econômicas que não dependem do mérito ou do desempenho de mercado. No Brasil, prevalece uma elite rentista que prospera mediante incentivos governamentais, como subsídios, barreiras regulatórias e contratos favorecidos, um modelo que, ao longo do tempo, distorce os incentivos econômicos e perpetua a desigualdade.
Retratos de um Brasil que não se sabe
Para entender o fenômeno, eu relaciono a elite brasileira à teoria do rent-seeking, conforme estudada por economistas como Gordon Tullock e Anne Krueger. Nesse conceito, grupos privilegiados procuram extrair riqueza por meio da manipulação de regras ou políticas públicas, em vez de gerar valor real.
No Brasil, esse comportamento se manifesta em práticas como monopólios protegidos, concessões governamentais, isenções fiscais seletivas e legislações que favorecem setores específicos em detrimento da concorrência. Essas práticas têm efeitos sistêmicos negativos, reduzindo produtividade, desestimulando o investimento sério em produtividade e consolidando privilégios de poucos. Portanto, em detrimento do bem-estar geral da sociedade, principalmente, dos menos assistidos.
Contextualizo as causas institucionais e culturais para a predominância de elites rentistas no Brasil. Entre elas estão: instituições políticas frágeis, alta complexidade regulatória, baixa accountability e a cultura política voltada para o curto prazo. A educação estabelecida como projeto de fracasso, como bem colocava Darcy Ribeiro, e o populismo do discurso extremamente frágil intelectualmente, principalmente em temas de cientificidade, contribuem para a manutenção desse modelo, ao criar cidadãos alienados.
Educação essencial
Acemoglu & Robinson, autores de Por Que as Nações Fracassam, defendem que instituições inclusivas promovem desenvolvimento econômico, enquanto instituições extrativistas concentram poder e riqueza em uma elite restrita. Para os autores, o Brasil exemplifica o caso de um país com instituições extrativistas parciais: regras que favorecem certas elites e desencorajam concorrência e inovação.
Em síntese, uma crítica à elite brasileira contemporânea, caracterizada como “nobre rentista”: aparentemente respeitável e bem posicionada, mas essencialmente dedicada a manter sua posição por meios que não geram progresso coletivo. A recuperação do Brasil exige não apenas reformas na economia, mas uma transformação cultural e institucional, fortalecendo o Estado de direito e promovendo instituições que recompensem a criação de valor real.

Investir em papeis não produz nada, a não ser riqueza (em papeis) para quem negocia em bancos, fintechs e especulações no mercado de capitais. O país está preso no sistema financeiro. O portão aberto para a corrupção em altíssimos volumes.
O baixo desempenho global do país não decorre apenas de fatores externos ou históricos, mas também da predominância de uma elite rentista, cuja lógica de extração de privilégios compromete o crescimento sustentável e perpetua desigualdades. Grupos pequenos, altamente coordenados, que detêm recursos humanos, financeiros e de conhecimento, são capazes de influenciar e moldar as instituições e as leis e o Congresso.
Lobbies determinam o desenvolvimento humano e econômico do país, orientando comportamentos individuais e coletivos por meio das oportunidades e restrições impostas pelas instituições.
Da escravidão ao neo-escravagismo liberal do século XXI
As elites de alta qualidade (não é o caso brasileiro) criam valor para a sociedade: investem em inovação, produtividade e crescimento sustentável. As elites de baixa qualidade, por outro lado, operam em modelos de negócios baseados na extração de valor, buscando benefícios próprios às custas da sociedade, principalmente dos mais pobres.
A predominância das elites rentistas brasileiras ao fenômeno do rent-seeking busca privilégios estatais, proteções regulatórias e contratos favorecidos em vez de competir nos mercados. Isso se mostra em práticas como monopólios protegidos, barreiras regulatórias, concessões governamentais seletivas e isenções fiscais privilegiadas.
O resultado é que boa parte da riqueza gerada não provém da criação de valor econômico, mas do favorecimento político. Para o cidadão comum, isso se traduz em produtos e serviços mais caros e de qualidade inferior. (continua…)
Luiz César Silva – PósDoc e Pesquisador em Economia – Un. Porto – Autor
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