A carregar agora
×
Escola não se protege com Palavras de Ordem

Escola não se protege com Palavras de Ordem

Violência contra professores: por que disciplina sem prevenção não resolve o problema

Redação

Os números mostram a dimensão do desafio. Na Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS 2024),coordenada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 46,6% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental apontaram a intimidação ou o abuso verbal por estudantes como fonte de estresse profissional.

Esse percentual ficou entre os mais elevados dos 55 sistemas educacionais com dados disponíveis para esse indicador. A média da OCDE foi de 17,6%. O resultado brasileiro, portanto, supera a média internacional em 29 pontos percentuais.

É necessário interpretar corretamente esse dado. A pesquisa registra uma fonte de estresse declarada pelos professores, não a proporção de docentes que sofreram agressão física nem o total de ocorrências policiais. Ainda assim, a distância entre o Brasil e a média internacional sinaliza uma dificuldade que merece atenção institucional.

A mesma pesquisa identificou outros fatores de pressão: 63,8% dos professores brasileiros relataram estresse associado à manutenção da disciplina, enquanto 66,3% apontaram a responsabilização pelo desempenho dos estudantes.

Bem além da função docente

Esses indicadores revelam um ambiente de trabalho que exige mais do que recomendações genéricas para que o professor tenha autoridade. A escola precisa de condições para exercer essa autoridade. Ou seja, equipes preparadas, protocolos de atuação, apoio da gestão, canais seguros de denúncia e articulação com serviços de saúde, assistência social e proteção de crianças e adolescentes.

A violência escolar também não se limita aos episódios extremos que dominam o noticiário. Humilhações reiteradas, ameaças, discriminação, agressões físicas, perseguição digital e intimidação de profissionais deterioram a convivência e podem comprometer o aprendizado. Uma revisão rápida publicada em Educação em Revista, em 2025, reuniu 127 revisões sistemáticas sobre o tema.

Os autores identificaram diferentes dimensões do fenômeno, incluindo fatores associados à violência, vitimização entre estudantes, ataques armados e intervenções preventivas. A amplitude dos estudos reforça que não existe uma causa única nem uma resposta universal.

Modelos falidos, primários a serem revistos.

É nesse contexto que as escolas cívico-militares aparecem, em determinados debates políticos, como resposta aparentemente imediata: mais hierarquia, mais disciplina e, supostamente, menos violência. A promessa merece avaliação, não adesão automática. Estabelecer regras e organizar rotinas pode contribuir para o funcionamento escolar, mas não demonstra, por si só, que uma instituição reduziu agressões, eliminou o bullying ou melhorou a aprendizagem.

Também precisamos distinguir modelos diferentes. Escolas militares tradicionais não são equivalentes a escolas públicas civis que adotam gestão compartilhada ou incorporam profissionais militares em determinadas funções. Cada modalidade tem organização, objetivos e custos próprios. Compará-las sem explicitar essas diferenças compromete a análise.

O problema do discurso que apresenta a militarização como solução geral está em reduzir uma questão multidimensional à obediência. Conflitos escolares podem envolver discriminação, dificuldades familiares, exposição à violência comunitária, sofrimento emocional, assédio digital e falhas na própria organização institucional. A redução das reclamações também não comprova o desaparecimento das agressões: pode refletir subnotificação ou medo de denunciar.

“A hierarquia pode impor silêncio; silêncio, contudo, não significa necessariamente segurança. Se fosse o caso que o Min. da Defesa usasse seu orçamento para criar escolas militares de nível médio, com vagas exclusivas para quem quisesse seguir a carreira.”

Isso não significa que regras sejam dispensáveis, que a escola deva tolerar ameaças ou que profissionais não precisem de proteção. Pelo contrário, significa exigir evidências proporcionais às promessas. Qualquer programa que pretenda reduzir a violência deve apresentar indicadores anteriores e posteriores à implantação, custos completos, registros de ocorrências, frequência, evasão, resultados de aprendizagem e avaliações do clima escolar.

Portanto, sempre que possível, a análise deve comparar escolas semelhantes e considerar fatores externos que influenciam os resultados.

A prevenção exige trabalho permanente. A gestão precisa registrar episódios, identificar reincidências, proteger vítimas e estabelecer consequências proporcionais. Os professores necessitam de formação e apoio para lidar com conflitos; os estudantes precisam conhecer as regras, participar da construção de uma convivência respeitosa e encontrar canais confiáveis para pedir ajuda. As famílias e os serviços públicos devem integrar essa rede, sobretudo quando a escola identifica situações que exigem acompanhamento especializado.

O Ministério da Educação instituiu o Programa Escola que Protege, vinculado ao Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate à Violência nas Escolas (SNAVE). Entre seus sete eixos há, inclusive, um link que oferece cursos de formação. Uma iniciativa que prevê atualização de profissionais, monitoramento, planos de enfrentamento e articulação entre diferentes setores.

Essa abordagem reconhece que a proteção depende de prevenção, capacidade de resposta e cooperação institucional, não apenas de medidas disciplinares.

A questão decisiva, portanto, não é qual modelo produz a imagem mais impressionante de ordem. É qual política reduz efetivamente as agressões, protege quem ensina e quem aprende, melhora a convivência e preserva o direito à educação. Assim, para respondê-la precisamos de transparência, avaliação independente e disposição para corrigir programas que não entreguem os resultados prometidos.

A escola não pode abandonar o professor à própria sorte, tampouco transformar o estudante em inimigo. Segurança, autoridade pedagógica e respeito aos direitos não são objetivos incompatíveis. Uma política educacional séria precisa conciliá-los e demonstrar, com dados verificáveis, que consegue fazê-lo.


ADENDO

Bullying: quando a humilhação vira rotina, a escola precisa agir

O bullying não se confunde com qualquer discussão entre colegas. Ele envolve intimidação ou humilhação recorrente e pode ocorrer por meio de insultos, exclusão deliberada, ameaças, agressões físicas e ataques digitais. Quando a prática se associa a um desequilíbrio de poder, a vítima pode encontrar dificuldade para interrompê-la sem apoio de adultos e da instituição.

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou aumento na proporção de estudantes que relataram ter sido humilhados por colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. O indicador passou de 23,0% em 2019 para 27,2% em 2024. Assim, mais de um quarto dos estudantes pesquisados relatou situações recorrentes de humilhação. Dados em detalhes aqui.

Os resultados também revelam diferenças importantes. Em 2024, 30,1% das meninas relataram essas experiências, ante 24,3% dos meninos. A aparência do rosto ou do cabelo, mencionada por 30,2% dos estudantes vitimizados, e a aparência corporal, citada por 24,7%, apareceram entre os motivos declarados. Além disso, 13,7% dos estudantes afirmaram ter praticado bullying no período investigado.

A ocorrência atravessa as redes pública e privada. 27,2% dos estudantes da rede pública e 27,5% dos matriculados na rede privada relataram vitimização recorrente. Portanto, o problema não pode ser atribuído exclusivamente a uma rede, a uma classe social ou a um único perfil familiar. Entretanto, não nos escapa uma evidente confirmação de que algo de complicado reside no perfil psicossocial dos jovens brasileiros.

Tabela 1 — Indicadores de bullying e estresse docente
IndicadorResultadoFonte
Estudantes que relataram humilhação recorrente em 201923,0%IBGE, PeNSE
Estudantes que relataram humilhação recorrente em 202427,2%IBGE, PeNSE
Meninas que relataram humilhação recorrente em 202430,1%IBGE, PeNSE
Meninos que relataram humilhação recorrente em 202424,3%IBGE, PeNSE
Estudantes que declararam praticar bullying13,7%IBGE, PeNSE
Professores que apontaram intimidação ou abuso verbal de estudantes como fonte de estresse46,6%OCDE, TALIS 2024
Professores que apontaram a manutenção da disciplina como fonte de estresse63,8%OCDE, TALIS 2024

Nota metodológica: a PeNSE mede respostas dos estudantes a perguntas específicas sobre humilhação por colegas. Os indicadores da TALIS medem fontes de estresse declaradas pelos professores. As pesquisas têm populações, instrumentos e finalidades diferentes; não se deve somar seus resultados nem tratá-los como medidas equivalentes de violência. Cabe-nos, porém, analisar suas relações.

Gráfico 1 — Aumento do bullying recorrente entre estudantes

Percentual de estudantes que relataram humilhação por colegas duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa.

2019 | ███████████████████████       23,0%
2024 | ███████████████████████████   27,2%

Fonte: IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar — PeNSE 2019 e 2024.

A prevenção precisa começar antes que a agressão se torne grave. A escola deve oferecer canais seguros de comunicação, registrar os episódios, acompanhar a reincidência e proteger quem denuncia. A gestão também precisa trabalhar o respeito às diferenças, enfrentar a discriminação e orientar famílias e profissionais sobre como agir.

A punição pode integrar a resposta institucional, mas não substitui a investigação do caso nem garante que a violência cesse. Práticas restaurativas podem contribuir em situações adequadas, considerando a não exposição da vítima, não imponham reconciliação e não afastem as medidas de proteção necessárias.

Tampouco devemos considerar a escola cívico-militar uma solução automática para o bullying. A avaliação de qualquer modelo precisa verificar se as ocorrências diminuíram, se os estudantes se sentem seguros para denunciar, e fundamentalmente, se as vítimas recebem apoio e se os casos deixam de se repetir.

O compromisso da escola não consiste em evitar que os conflitos venham à tona, mas em identificá-los, enfrentá-los e impedir que se transformem em práticas toleradas. Bullying não é brincadeira inevitável da adolescência. É uma questão de convivência, proteção e direito à educação.


Referências para consulta e edição
  1. IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar — PeNSE 2024. Resultados e indicadores de bullying. Agência de Notícias do IBGE.
  2. OCDE. TALIS 2024 Results: Brazil — Country Note. Indicadores sobre estresse docente, disciplina e intimidação verbal. Education GPS — Brasil.
  3. INEP. Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem — TALIS. Metodologia e documentação brasileira. Portal do Inep.
  4. Cunha, Josafá Moreira da et al. “Compreender a violência escolar: uma revisão sistemática sobre as características, fatores associados e intervenções”. Educação em Revista, v. 41, 2025. Artigo científico e DOI.
  5. Ministério da Educação. Programa Escola que Protege — objetivos, formação, prevenção e monitoramento. Como funciona.
AEL-e-IE.Br-logook Escola não se protege com Palavras de Ordem

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política