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RELATÓRIO Nº 2A.3 — QUEM ESTUDA EM SÃO PAULO?

O estudante no centro da inteligência educacional

Como ler esta camada

Nesta camada, o estudante está no centro da investigação. Não queremos apenas saber quantos são, mas quem são, onde estão, em que redes e etapas estudam, como percorrem sua trajetória escolar e quais diferenças aparecem quando observamos o território paulista em profundidade.


QUEM ESTUDA EM SÃO PAULO?

Perguntar quem estuda em São Paulo parece, à primeira vista, uma questão simples. Bastaria contar matrículas. Mas não é.

Uma matrícula é um registro administrativo, um pedaço de papel ou uma artigo digital. Opostamente, um estudante é uma trajetória.

Por trás dos números estão crianças que chegam à escola pela primeira vez, adolescentes que atravessam os anos finais da educação básica, jovens que precisam decidir entre estudar e trabalhar, adultos que retornam à escola pela EJA e estudantes que necessitam de condições específicas para que o direito à educação seja efetivamente garantido.

É por isso que esta camada não pretende apenas responder quantos estudam. Queremos descobrir quem são, onde estão, em que redes estudam, em que etapas se encontram e que diferenças aparecem quando São Paulo é observado por dentro.

O Censo Escolar é a principal pesquisa estatística da educação básica brasileira. Realizado anualmente, reúne informações sobre matrículas, escolas, turmas, docentes, gestores e profissionais escolares, abrangendo as diferentes etapas e modalidades da educação básica e da educação profissional.

É a partir dessa grande fotografia estatística — e de sua leitura territorial — que começamos a abrir o retrato paulista.


1. UM ESTADO, MUITAS EDUCAÇÕES

São Paulo não possui uma única rede de ensino.

O território paulista reúne a rede estadual, as redes municipais, a rede federal e a iniciativa privada. São 645 municípios, cada um com sua própria configuração demográfica, econômica e territorial.

Há grandes centros urbanos, cidades médias, pequenos municípios, regiões metropolitanas, áreas rurais, territórios industriais e agrícolas e localidades com diferentes condições de acesso aos serviços públicos.

Essa diversidade muda a maneira como devemos interpretar os números.

Duas cidades podem apresentar quantidade semelhante de estudantes e, ainda assim, oferecer experiências educacionais muito diferentes. Uma pode concentrar sua população escolar em poucos estabelecimentos; outra pode precisar distribuir escolas por grandes extensões territoriais.

Portanto, saber quantos estudam é apenas o começo.

A pergunta seguinte é inevitável:

onde esses estudantes estão?


2. DA MATRÍCULA AO ESTUDANTE

O Censo Escolar 2025 registrou 46 milhões de matrículas na educação básica brasileira. O Ensino Fundamental continua sendo a maior etapa, com 25,8 milhões de matrículas. A Educação Infantil reúne 9,2 milhões; o Ensino Médio, 7,3 milhões; a Educação Profissional, 3,1 milhões; e a Educação Especial, considerada como modalidade, registra 2,5 milhões de matrículas.

Esses números nacionais ajudam a compreender a dimensão do sistema.

Mas não devemos transportar automaticamente a fotografia brasileira para São Paulo.

O estado precisa ser analisado em seus próprios dados, considerando as redes que atuam em seu território e as diferenças entre municípios.

A própria Secretaria da Educação paulista mantém um portal de Dados Abertos com categorias específicas para matrículas, escolas, profissionais da educação, infraestrutura, orçamento e resultados educacionais.

É nessa combinação entre a base nacional e as bases paulistas que a investigação ganha precisão.


3. QUEM SÃO OS ESTUDANTES?

Não existe um estudante paulista típico.

Há crianças na Educação Infantil, alunos dos anos iniciais e finais do Ensino Fundamental, adolescentes no Ensino Médio, jovens na Educação Profissional e adultos que retornam à escola.

Existem estudantes que percorrem a trajetória escolar sem interrupções e outros que enfrentam reprovação, abandono, mudança de cidade, necessidade de trabalhar ou outras circunstâncias que interferem no percurso.

Há também diferenças relacionadas ao território, à renda familiar, à raça/cor, ao gênero, à idade e às condições de inclusão.

No conjunto brasileiro, o Censo Escolar 2025 registra 23,2 milhões de meninos e 22,7 milhões de meninas matriculados na educação básica. Em relação à raça/cor, estudantes pretos e pardos somam 23,1 milhões de matrículas.

Esses números não servem para criar rótulos.

Servem para lembrar que uma média pode esconder diferenças importantes entre grupos e territórios.

A inteligência educacional começa quando essas diferenças passam a ser visíveis.


4. EM QUE ETAPA ESTÃO?

A etapa escolar muda completamente a experiência do estudante.

A criança pequena depende de uma estrutura de Educação Infantil adequada às suas necessidades. Nos anos iniciais, alfabetização e consolidação das aprendizagens fundamentais assumem papel decisivo. Nos anos finais, aumentam a complexidade curricular e o número de professores.

No Ensino Médio, surgem ainda outras questões: continuidade dos estudos, formação profissional, ingresso no trabalho e preparação para a vida adulta.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) possui outra lógica. Seu público carrega trajetórias escolares interrompidas e experiências de vida que precisam ser consideradas pela escola. A Educação Profissional acrescenta uma relação mais direta entre formação e mundo do trabalho.

Por isso, contar estudantes sem saber em que etapa estão produz uma fotografia incompleta.


5. O TEMPO EM QUE O ESTUDANTE PERMANECE NA ESCOLA

Outro aspecto importante é o tempo escolar.

O Censo Escolar 2025 registrou 10,1 milhões de matrículas em tempo integral no Brasil. O Inep considera como tempo integral a permanência do estudante na escola ou em atividades escolares por pelo menos sete horas diárias ou 35 horas semanais durante todo o período letivo.

O crescimento do tempo integral é uma mudança importante na organização da educação brasileira. Em 2025, a proporção de matrículas públicas em tempo integral chegou a 25,8%, segundo o Inep.

Entretanto, mais tempo na escola não significa automaticamente melhor educação.

É preciso perguntar:

que atividades ocupam esse tempo?

Há professores suficientes? Existem espaços adequados? Alimentação? Laboratórios? Bibliotecas? Esporte? Cultura? Atendimento especializado?

O relógio mede horas.

A educação precisa transformar horas em formação.


6. ENSINO MÉDIO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL

A passagem para o Ensino Médio merece atenção especial.

Para muitos jovens, essa etapa representa o encontro entre a escola, o trabalho e a definição de um caminho futuro.

São Paulo vem ampliando a oferta de Ensino Médio Técnico. Em novembro de 2025, a Secretaria da Educação paulista informou que a rede estadual contava com 124 mil estudantes matriculados nessa modalidade naquele momento, com previsão de chegar a 231 mil no ano seguinte; somadas as matrículas das Etecs do Centro Paula Souza, a projeção chegava a 321 mil jovens na educação profissional.

O dado é importante não apenas pelo tamanho. Ele mostra uma mudança na pergunta que fazemos ao estudante: A escola prepara apenas para continuar estudando ou também para enfrentar o mundo do trabalho?

A resposta não pode ser dada apenas pelo número de matrículas. Será necessário observar cursos, territórios, infraestrutura, formação dos professores, articulação com o trabalho e resultados.


7. PERMANECER É TAMBÉM APRENDER

Entrar na escola não encerra a questão.É preciso permanecer. É preciso avançar e aprender.

Por isso, uma investigação sobre quem estuda precisa observar também frequência, distorção idade-série, abandono, aprovação, conclusão e trajetória.

O Censo Escolar 2025 mostrou redução da distorção idade-série na rede pública brasileira, alcançando 6,5% nos anos iniciais do Ensino Fundamental, 14,2% nos anos finais e 16,0% no Ensino Médio. São indicadores importantes.

Entretanto, médias nacionais ou estaduais podem esconder situações muito diferentes entre municípios, redes e territórios. Uma queda na média pode coexistir com bolsões persistentes de desigualdade.

Por isso, o estudante precisa ser observado dentro do território em que vive e estuda.


8. O ESTUDANTE COMO CENTRO DA INVESTIGAÇÃO

A educação costuma ser descrita por suas estruturas: escolas, secretarias, redes, orçamento, professores, programas e avaliações. Tudo isso importa.

Mas existe uma pergunta anterior:

Para quem tudo isso existe?

O estudante não é apenas o destinatário final de uma política pública. Ele é o centro humano do sistema educacional.

Quando falta uma escola é o estudante que enfrenta o deslocamento. Se a infraestrutura é insuficiente, é o estudante que perde uma oportunidade. Não há professores em número suficiente? Mais uma vez é o estudante que sente a interrupção.

Quando a escola funciona bem, também é ele quem recebe os benefícios: conhecimento, repertório, convivência, autonomia e possibilidade de construir novos caminhos.

É por isso que “quem estuda?” precisa vir antes de muitas outras perguntas.


9. A PRÓXIMA PERGUNTA

Agora que começamos a identificar quem estuda, precisamos saber onde estuda.

Quantas escolas existem? Onde estão? Como estão distribuídas pelos 645 municípios? Quais regiões concentram determinadas etapas? Onde existem vazios de oferta? Que diferenças aparecem entre capital, regiões metropolitanas, cidades médias e pequenos municípios?

Essa será a próxima camada.

2A.4 — Onde estão as escolas?

A investigação continua seguindo nossa bússola:

quem ensina – quem estuda – onde estuda – quem oferece – quanto custa – quem paga – quanto recebe – o que entrega – onde estão as desigualdades.

A cada camada, o mapa fica maior.

E, ao mesmo tempo, mais próximo da realidade de quem aprende.