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O Centro de Inteligência Integrada Brasileiro

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Quem controla os dados controla o futuro
Ciência, tecnologia e soberania na era das plataformas digitais

“No século XXI, a riqueza de uma nação já não é medida apenas por suas reservas minerais, sua produção agrícola ou seu parque industrial. Ela também reside em algo invisível: seus dados, seu conhecimento científico e a capacidade de protegê-los e difundi-los pela Educação. (Melvor Groë)

A nova fronteira da soberania – Durante décadas, a ideia de soberania esteve associada ao controle do território, das fronteiras, dos recursos naturais e das instituições nacionais. Hoje, porém, um novo elemento passou a integrar esse conceito: o domínio sobre a infraestrutura digital e sobre os dados produzidos por governos, empresas, universidades e cidadãos.

O Brasil vive uma contradição silenciosa. Somos um dos maiores mercados digitais do planeta. Milhões de brasileiros trabalham, estudam, compram, pesquisam e produzem conhecimento em plataformas controladas por empresas estrangeiras. Entretanto, grande parte das informações geradas diariamente percorre redes globais e, muitas vezes, é armazenada em centros de processamento localizados fora do país.

Essa realidade trouxe ganhos extraordinários de conectividade, inovação e produtividade. Assim, uma pergunta surgiu e que poucos governos enfrentaram com a profundidade necessária: quem controla a informação controla também parte da soberania nacional?

No Coliseu das grandes intenções

Lembro que na década de 1980 eu li os relatórios de encontros, debates e conferências internacionais ocorridos em Paris, França sobre o poder da informação e da comunicação. De lá abstraí o conceito que orientaria as grandes potencias do grupo do G5, que virou G8, voltou a G7 e hoje aceita a presença do G20.* Quem controlasse a produção (informação como mercadoria), estes fluxos e a tecnologia controlaria o mundo. Todavia, essa discussão deixou de ser teórica.

A inteligência artificial, a computação em nuvem, a economia de dados e a crescente competição tecnológica entre grandes potências transformaram informação em ativo estratégico. Ou seja, dados científicos, industriais, econômicos e educacionais passaram a ter valor semelhante ao de recursos naturais, pois alimentam sistemas de IA, orientam políticas públicas e impulsionam inovação.

Assim, nesse cenário, soberania digital não significa isolar o país da economia global. Significa garantir que informações críticas possam ser protegidas por instituições nacionais, sob regras definidas democraticamente pelo Brasil.

Ciência também é patrimônio estratégico

Durante muito tempo, laboratórios universitários eram vistos apenas como espaços dedicados à produção de conhecimento. Hoje, eles também integram a infraestrutura estratégica de qualquer nação.

Pesquisas em biotecnologia, novos materiais, agricultura, inteligência artificial, saúde, energia e segurança possuem enorme valor econômico e geopolítico. Entretanto, em muitos casos, os dados produzidos por pesquisadores tornam-se mais valiosos do que os próprios equipamentos utilizados para obtê-los.

Os recentes episódios de retirada não autorizada de material biológico de um laboratório da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), atualmente investigados pelas autoridades competentes, evidenciaram uma realidade que costuma permanecer distante do debate público. Universidades e centros de pesquisa também precisam desenvolver uma cultura permanente de segurança científica.

Até o momento, não há comprovação pública de espionagem científica, e as motivações do caso seguem sob investigação. Ainda assim, com todo o respeito que tenho pela instituição, o episódio reforça a necessidade de protocolos robustos para proteger pesquisas e ativos científicos.

Esse desafio não é exclusivo do Brasil. Diversos países ampliaram, nos últimos anos, mecanismos de proteção de pesquisas consideradas sensíveis, especialmente em áreas relacionadas à saúde, defesa, computação quântica, biotecnologia e inteligência artificial.

A ciência tornou-se parte da infraestrutura crítica das nações.

Isso exige novos protocolos de governança, investimentos em cibersegurança, controle de acesso a laboratórios, proteção de bancos de dados e formação de pesquisadores conscientes dos riscos associados à circulação internacional de informações estratégicas.

A urgência dos Data Centers, das plataformas digitais são o novo desafio brasileiro

O debate sobre soberania digital não termina nos laboratórios. Ele alcança diretamente a infraestrutura onde circulam e permanecem os dados.

Data centers deixaram de ser apenas edifícios repletos de servidores. Hoje, constituem a espinha dorsal da economia digital. É neles que são armazenados prontuários médicos, pesquisas científicas, sistemas financeiros, serviços públicos, plataformas educacionais e aplicações de inteligência artificial. É importante saber que ainda assim, estaremos em grande medida, presos a uma estrutura que precisa ser revista. O Google Chromium é muito mais do que um sistema .

O verdadeiro poder

O poder do Chromium não está em controlar informações diretamente, mas reside em definir como a informação pode existir na Web. Quem controla a plataforma estabelece:

  • quais tecnologias são suportadas;
  • quais APIs passam a existir;
  • quais recursos de segurança tornam-se padrão;
  • quais formatos de mídia serão utilizados;
  • como aplicações funcionam.

Imagine uma rodovia. Não importa qual caminhão ou carro você compre e dirija. Se existe apenas uma rodovia, todos dependem dela. O Chromium tornou-se essa (cyber)rodovia.

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Imagem criativa de um provável DataCenter e seu complexo hardware operacional. (Web)

Os Data Centers

Naturalmente, sua construção levanta questões relevantes relacionadas ao consumo de energia, uso de água e impactos ambientais. Esses aspectos precisam ser enfrentados com rigor técnico e planejamento sustentável.

Mas existe outra dimensão que nem sempre recebe a mesma atenção: a segurança nacional.

Em um mundo marcado por ataques cibernéticos, disputas geopolíticas e crescente competição tecnológica, depender exclusivamente de infraestrutura localizada fora do território nacional representa uma vulnerabilidade estratégica.

Não se trata de defender isolamento tecnológico nem de romper com a economia global. Trata-se de desenvolver capacidade nacional de armazenar, proteger e processar informações críticas sob legislação brasileira e com elevados padrões de segurança e sustentabilidade.

Essa infraestrutura será cada vez mais indispensável para o funcionamento de universidades, hospitais, sistemas financeiros, serviços públicos e empresas inovadoras.

Enquanto empresas globais capturam parte significativa do valor econômico produzido pelos dados de milhões de brasileiros, muitos países revisam seus modelos tributários para garantir que essa riqueza também contribua para financiar infraestrutura, inovação e políticas públicas locais.

Quem concorda levanta a mão. E quem não?

O recente acordo internacional que flexibilizou a aplicação do imposto mínimo global para determinadas multinacionais, após negociações lideradas pelos Estados Unidos, reforçou um princípio importante: cada país mantém soberania para definir sua política tributária sobre atividades econômicas realizadas em seu território.

Esse reconhecimento, é pouco, mas fortalece o debate brasileiro sobre como equilibrar inovação, competitividade e justiça fiscal na economia digital. No fundo, todas essas questões convergem para uma mesma ideia. Dados, ciência, inteligência artificial, plataformas digitais e infraestrutura computacional deixaram de ser temas exclusivamente tecnológicos. Tornaram-se componentes essenciais da soberania contemporânea.

O Brasil possui universidades reconhecidas internacionalmente. Uma comunidade científica qualificada, um dos maiores mercados digitais do mundo e enorme potencial para liderar soluções em inteligência artificial, educação, agricultura, saúde e sustentabilidade.

Transformar esse potencial em desenvolvimento dependerá de escolhas feitas agora. Você vota a favor?

Investir em pesquisa, proteger conhecimento estratégico, fortalecer a infraestrutura nacional de dados, ampliar a segurança cibernética e construir uma governança moderna para a economia digital não representam medidas de fechamento ao mundo. Representam, ao contrário, condições para participar dele com autonomia. Soberania.

Porque, no século XXI, a independência de uma nação já não se mede apenas pelas riquezas que possui, mas também pela capacidade de produzir conhecimento. E além, proteger seus dados e decidir soberanamente sobre seu próprio futuro.

Portanto, educar para a inteligência artificial significa preparar o país para compreender, produzir e proteger o conhecimento que definirá seu desenvolvimento nas próximas décadas.

avatar ael

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política

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