Representações de um Mundo onde Não Vivemos
O que Fallout revela quando deixamos de assistir e começamos a investigar
“De olhos bem abertos. Coluna ereta, mente alerta e coração tranquilo.”
Redação
São Paulo, 27 de junho de 2026
4.8 Minutos
Foi assim que terminei a primeira temporada de Fallout. A série, inspirada na clássica franquia de jogos, apresenta um mundo devastado por guerras nucleares, sociedades subterrâneas, disputas por recursos e estruturas de poder que sobrevivem ao próprio colapso da civilização.
Como toda boa ficção científica, seu mérito não está em prever o futuro, mas em exagerar tendências do presente. Quando a tela escureceu, ficou uma pergunta incômoda: quanto daquele mundo realmente pertence à ficção?
Em vez de procurar teorias conspiratórias ou interpretações apressadas, decidi seguir outro caminho. Assim, busquei pesquisadores que vêm estudando, há anos, as relações entre tecnologia, poder, comunicação e comportamento humano.
As respostas não são simples. Mas ajudam a compreender por que determinadas distopias parecem cada vez menos distantes da realidade.
O comportamento humano tornou-se matéria-prima
Uma das contribuições mais importantes para compreender essa transformação foi apresentada pela pesquisadora Shoshana Zuboff, autora de The Age of Surveillance Capitalism (A Era do Capitalismo de Vigilância). Sua tese é provocadora.
As grandes plataformas digitais deixaram de oferecer apenas serviços tecnológicos. Elas passaram a transformar experiências humanas em matéria-prima econômica. Cada clique. Cada pesquisa. Cada deslocamento. Cada emoção manifestada nas redes. Compra e venda.
Assim, tudo pode ser convertido em dados, analisado por sistemas inteligentes e utilizado para prever — e, em determinadas circunstâncias, influenciar — comportamentos futuros. Nesse modelo econômico, dados pessoais tornam-se ativos estratégicos.
O produto deixa de ser apenas a tecnologia. O comportamento humano passa a integrar o próprio processo produtivo.
Na economia da atenção, somos o produto a ser consumido
Essa discussão dialoga diretamente com reflexões desenvolvidas por Nick Couldry, pesquisador da London School of Economics, em sua visita à USP, cuja entrevista publicada no jornal da USP reproduzida pela AEscolaLegal, em outubro de 2019, já alertava para os impactos sociais da concentração dos fluxos de informação.
O ponto central permanece atual. As grandes plataformas não disputam apenas mercados. Elas disputam atenção: tempo, preferências, afetos, linguagem. Ao administrar esses ecossistemas informacionais, tornam-se mediadoras da forma como milhões de pessoas percebem acontecimentos, constroem opiniões e organizam suas relações sociais.
Contudo, não se trata de afirmar um controle absoluto sobre indivíduos ou sociedades. Trata-se de reconhecer que, pela primeira vez na história, empresas privadas administram infraestruturas capazes de influenciar processos cognitivos em escala global.
Essa é uma mudança histórica. Fenomenológica.
Vivemos num mundo VUCA ou BANI?
Foi nesse contexto que conceitos como VUCA — volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade — de uso exclusivamente militar no pós-guerra ganharam espaço nas organizações.
Posteriormente surgiu o conceito adaptado BANI, procurando descrever sociedades marcadas por fragilidade, ansiedade, não linearidade e incompreensão. Originalmente utilizados em ambientes estratégicos e posteriormente incorporados pelo universo corporativo, esses modelos procuram explicar um mundo cada vez mais instável.
Eles possuem utilidade analítica. Mas também suscitam uma pergunta importante. Ao descrever permanentemente a instabilidade como condição inevitável da existência contemporânea, não corremos o risco de naturalizar aquilo que deveria ser objeto de crítica?
Essa questão atravessa boa parte da produção acadêmica recente. A aceleração tecnológica é um fato, tanto quanto a complexidade dos sistemas globais.
O desafio, portanto, consiste em distinguir aquilo que realmente pertence ao nosso tempo daquilo que se transforma em narrativa conveniente para justificar adaptações permanentes, competitividade extrema e precarização das relações sociais e de trabalho.
Essa distinção talvez seja uma das tarefas intelectuais mais importantes da atualidade.
Quando a disputa deixa de ser apenas econômica
Há poucos séculos, guerras eram travadas principalmente por territórios. Mais tarde vieram petróleo, minerais estratégicos, rotas marítimas e cadeias industriais. Assim, hoje, um novo recurso passou a integrar essa disputa. Os próprios seres humanos.
Mas, não apenas como força de trabalho ou consumidores. Mas como produtores permanentes de dados, atenção, preferências, vínculos sociais e padrões de comportamento. Talvez seja essa a maior novidade do capitalismo digital.
As plataformas tecnológicas administram ambientes onde circulam informações, afetos, linguagem, publicidade, entretenimento e participação política. Portanto, ao fazê-lo, influenciam parte significativa da construção cotidiana da realidade social. A batalha continua sendo econômica. Desde a formação dos estados nacionais na velha Europa.
Mas tornou-se, simultaneamente, cognitiva.




















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