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Thomas Hobbes – ou a Paz contra o Clero

Thomas Hobbes, ou a paz contra o clero

Thomas Hobbes – ou a Paz contra o Clero

Ateu e esquerdista – é o que aparenta ter sido um dos principais filósofos e autor de um dos livros mais famosos da História inglesa -, enquanto o Brasil ainda era Terra de Santa ou Vera Cruz.
Leia este trecho do livro do professor de Ética e Filosofia Política da USP

Nas partes III e IV do Leviatã, ou seja, na metade final do livro, Thomas Hobbes se dedica à política cristã. Para ser exato, a terceira parte trata do Estado cristão, e a última do poder que a Igreja católica romana pretende exercer. Por isso, na III ele fala do que é certo, e na IV do que a seu ver é errado. São partes pouco lidas da obra de Hobbes. Geralmente, quem as lê fica chocado.

Houve e ainda há reações fortes contra as quase blasfêmias que nosso autor, na parte IV, dirige contra o papado. Já a parte III impressiona o leitor com alguma formação cristã, por nela ler uma teologia tão heterodoxa. Seguramente, é esse caráter pouco usual das doutrinas religiosas de Hobbes que facilita considerá-lo como ateu.

De suas ideias uma, talvez a mais importante de sua teologia, é a da mortalidade da alma: esta última não passa de sopro, e por isso, quando exalamos o último suspiro, vai-se toda a vida que temos. Nada
sobrevive. Somente no dia do Juízo Final é que seremos ressuscitados – de corpo inteiro, porque a carne nada é sem o sopro, nem o sopro sem a carne – para um julgamento definitivo. Depois desse, os eleitos terão a
vida eterna, e os condenados sofrerão segunda e final morte.

Mas essa tese é, na verdade, menos chocante do que parece. O que Hobbes faz é articular várias teses que circulavam nos meios religiosos do século XVII. Tratava-se de ideias heterodoxas, talvez heréticas em face dos poderes estabelecidos, mas que foram bastante veiculadas na Inglaterra da Revolução Civil. Delas não se pode inferir um possível ateísmo de nosso autor.

Por quem não era proprietário

O que impressiona são, na verdade, duas coisas. A primeira é que nessas teses Hobbes se encontra, com a “esquerda” de sua época. Assim, enquanto sua vontade de preservar a ordem e sua simpatia (cada vez mais pessoal e menos expressa nas conclusões de suas obras) pela monarquia o aproxima da “direita”, e seu recurso ao contrato e aos interesses como fundamento para a teoria política, afastando-o do direito divino, situam-no mais perto de uma posição republicana, ou seja, de um “centro”, é na religião que nosso autor mais se achega ao que poderíamos chamar a “esquerda” de seu tempo.

Falar em direita, centro e esquerda antes da Revolução Francesa – quando esses termos passaram a ter aplicação política, a partir da distribuição dos deputados no recinto da Assembleia Constituinte – soa
anacrônico. E em alguns casos o é. Contudo, o conflito político inglês do século XVII autoriza uma leitura que assim o recorte.

Temos os defensores do poder do Rei e dos Grandes do reino, à direita; no centro, os que os contestam a partir da pequena e média propriedade, ou do capital; e, na esquerda, uma reivindicação mais radical, dos não proprietários…

Você pode continuar a leitura deste texto neste link.

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