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Mulheres e Homens no Professorado. Comparações.

Mulheres e Homens no Professorado. Comparações.

Série: Caderno da Inteligência Educacional Brasileira
Texto complementar
Relatório nº 2A — São PauloCamada profunda
Documento de inteligência educacional
Leitura: aproximadamente 7.8 minutos
Documento vivo

Por que as mulheres ocupam mais os cargos de professoras do que os homens de professores? Escolhas, preferências e sentidos da docência sob a lente da psicossociologia

O professor Volmer do Rêgo, editor chefe desta revista, me provocou com uma questão interessante. Como ele esteve exercendo a profissão docente por mais de 20 anos, calculo que tenha despertado para ela graças a sua vivência em sala de aulas. Enfim, deu-me toda a liberdade para escrever este artigo.

A pergunta feita parece estatística, mas não é. Por que, afinal, tantas mulheres escolhem ensinar enquanto uma parcela muito menor dos homens ingressa na docência?

No Brasil, a resposta começa pelos números: segundo o Censo Escolar 2025, as mulheres representam 78,8% dos docentes da educação básica, ou 1.896.389 profissionais.

Mas uma sociedade não escolhe profissões apenas porque indivíduos, isoladamente, “gostam” delas. As escolhas profissionais são construídas dentro de famílias, escolas, mercados de trabalho, culturas e expectativas sociais. São influenciadas por aquilo que aprendemos sobre o que significa “ser mulher”, “ser homem”, cuidar, prover, liderar, ensinar ou ganhar dinheiro.

É aí que a psicossociologia ajuda a enxergar uma camada que os números sozinhos não revelam.

A professora não nasceu professora

Durante muito tempo, o ensino das crianças foi associado ao universo doméstico e às funções culturalmente atribuídas às mulheres: cuidar, educar, proteger, acompanhar o desenvolvimento e organizar a vida cotidiana. Quando a educação escolar se expandiu, especialmente nos primeiros anos da escolarização, parte dessas expectativas foi transportada para a profissão.

A mulher que ensinava passou a ser percebida como uma extensão social da mulher que cuidava. Esse processo histórico não significa que exista uma “natureza feminina” para ensinar. Significa que a sociedade escolheu e produziu uma associação entre feminilidade, cuidado e educação.

E associações sociais podem sobreviver durante gerações mesmo depois que as condições que as produziram começam a desaparecer.

Escolha individual ou escolha socialmente orientada?

Uma jovem que decide cursar Pedagogia pode, evidentemente, estar fazendo uma escolha absolutamente pessoal. Mas essa escolha acontece depois de anos de experiências. Desde cedo, meninos e meninas recebem mensagens diferentes sobre suas possibilidades profissionais. A família, os professores, os colegas, a publicidade e os próprios modelos de sucesso existentes no ambiente social participam desse processo.

A OCDE identifica os estereótipos de gênero, os modelos disponíveis e as expectativas familiares e sociais como fatores importantes na escolha de áreas de estudo e profissões. Mulheres tendem a estar mais presentes em educação, saúde e bem-estar; homens, em áreas como engenharia, tecnologia e computação.

Portanto, talvez a pergunta mais precisa não seja: “Por que as mulheres preferem ser professoras?” Mas: “Como homens e mulheres chegam a considerar determinadas profissões mais possíveis, desejáveis ou adequadas para si?”

É o tipo de pergunta que muda tudo.

E eu gosto de pensar que sei fazer as perguntas certas. A docência oferece algo que outras profissões nem sempre oferecem. Além do que existe também uma dimensão material. A docência possui, em muitos sistemas educacionais, características que podem torná-la relativamente compatível com responsabilidades familiares: calendário escolar, organização dos horários, possibilidade de trabalho em diferentes turnos e, em alguns contextos, jornadas parciais.

A OCDE identifica justamente a compatibilidade entre trabalho e responsabilidades familiares como um dos fatores que podem tornar a profissão atraente para mulheres, especialmente mães. Mas há aqui uma contradição importante.

Mulheres e Homens no Professorado. Comparações.

Se essa flexibilidade é socialmente valorizada pelas mulheres porque elas ainda carregam parcela maior do trabalho doméstico e do cuidado familiar, então a própria estrutura social ajuda a produzir a feminização da profissão.

Ou seja: a profissão parece flexível porque a sociedade distribui de maneira desigual as responsabilidades fora dela.

É uma engrenagem silenciosa.

O problema não é somente quem entra. É também quem permanece.

A psicossociologia acrescenta outra pergunta: o que acontece depois que a pessoa entra na profissão? A identidade profissional é construída pelo reconhecimento recebido. Quando uma ocupação é culturalmente associada ao cuidado, pode adquirir enorme importância social e, simultaneamente, menor prestígio econômico.

É um paradoxo conhecido em várias profissões historicamente feminilizadas: aquilo que é considerado socialmente indispensável pode ser economicamente subvalorizado. No magistério, essa contradição aparece com força.

Professoras são responsáveis por uma atividade essencial à reprodução cultural da sociedade, mas a profissão frequentemente convive com baixos níveis de reconhecimento social, pressão cotidiana, trabalho invisível e remuneração que nem sempre corresponde à responsabilidade assumida. Apesar das propagandas dos governos, principalmente na educação pública.

A própria OCDE registrou, no TALIS, uma percepção internacional de baixo reconhecimento social da profissão docente.

E por que tantos homens não escolhem a docência?

Aqui, meu leitor, entramos numa questão delicada. Não se trata de afirmar que homens “não gostam” de crianças, que não possuem capacidade de cuidado ou que seriam naturalmente menos inclinados a ensinar. Isso seria apenas substituir um estereótipo por outro.

O problema pode estar nas expectativas sociais associadas à masculinidade. Em muitas culturas, ainda existe uma associação entre masculinidade, provisão financeira, autoridade, competição, status e ocupações percebidas como economicamente mais rentáveis. A docência, especialmente nos primeiros anos da educação básica, pode ser percebida como profissão de menor prestígio financeiro e social.

A OCDE encontrou uma diferença consistente: em países participantes do TALIS, o ensino aparece mais frequentemente como primeira escolha profissional entre mulheres do que entre homens.

No Brasil, os dados mais recentes do TALIS 2024 mostram que 65% dos professores dos anos finais do ensino fundamental são mulheres. Nos anos iniciais, a proporção feminina chega a 87,9%. Quanto mais próximo estamos das primeiras etapas da escolarização, portanto, mais forte tende a ser a feminização. Por conta do machismo brasileiro, impregnado e reforçado por lideranças políticas (retrógradas, e portanto, pouco recomendáveis) seus salários são também inferiorizados.

A criança também aprende com quem ensina

Existe ainda uma consequência pedagógica que merece atenção. A escola não transmite apenas matemática, língua, história ou ciências. Ela também transmite modelos sociais. Uma criança que atravessa toda a educação básica encontrando quase exclusivamente mulheres em determinadas funções pode formar, mesmo sem perceber, uma associação entre mulher e cuidado, mulher e educação, homem e autoridade, homem e determinadas profissões.

Por isso, diversidade docente não deve significar substituir mulheres por homens. Significa ampliar os repertórios possíveis. Meninas precisam encontrar mulheres em todas as áreas do conhecimento. Meninos precisam encontrar homens que cuidam, ensinam, educam e acolhem.

A diversidade de adultos diante da criança pode funcionar como uma espécie de biblioteca humana de possibilidades.

A questão não é masculinizar a escola. É ‘desgenerizar’ as escolhas.

Esse talvez seja o ponto central. A solução não é fazer uma campanha para convencer homens a serem professores. Muito menos transformar a presença feminina em problema. A feminização do magistério só se torna uma questão de inteligência educacional quando percebemos que ela pode revelar uma divisão social mais profunda do trabalho, das expectativas e do reconhecimento.

O que isso revela sobre a Inteligência Educacional?

A distribuição dos professores por sexo é, portanto, mais que uma fotografia do sistema educacional. É um indicador de sua estrutura social. Ele nos permite perguntar:

Quem ensina? Mas também: Por que essas pessoas chegaram até aqui? Quais escolhas foram realmente livres? Quais foram socialmente estimuladas? Quanto vale economicamente o trabalho realizado? Quem permanece na profissão? Quem abandona, ou chega à direção? E finalmente, os que ocupam os espaços de decisão?

Essas perguntas nos levam diretamente à camada profunda do Caderno da Inteligência Educacional Brasileira. Porque compreender a educação não é apenas contar escolas, estudantes e professores. É compreender as relações humanas que sustentam esses números.

Em síntese

As mulheres não ocupam majoritariamente a docência por uma única razão.

Há uma combinação de história, socialização, identidade, expectativas familiares, condições de trabalho, responsabilidades de cuidado, estrutura salarial, prestígio profissional e modelos culturais de masculinidade e feminilidade.

Algumas mulheres escolhem a docência por vocação. Ou por identificação. Talvez por oportunidade. Outras, pela estabilidade. E também descobrem a profissão depois de experiências em outras áreas. E muitos homens fazem exatamente o mesmo. A inteligência está justamente em não transformar uma tendência estatística em uma característica natural.

A pergunta não é por que as mulheres “são” professoras.

Então, a boa pergunta é: que sociedade construímos para que ser professora tenha se tornado, historicamente, uma escolha tão predominantemente feminina?

E, sobretudo: que sociedade queremos construir para que ensinar seja uma escolha possível, respeitada e valorizada por qualquer pessoa?


Referências essenciais
  1. OECD. Why is the gender ratio of teachers imbalanced? Education Indicators in Focus, nº 81, 2022.
  2. OECD. Joining Forces for Gender Equality — Gender differences in career expectations and feminisation of the teaching profession. Paris, 2023.
  3. INEP. Censo Escolar da Educação Básica — microdados 2025 e dados sobre perfil dos docentes. Ministério da Educação.

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política