Brasil melhora no Ideb, mas a distância entre redes, territórios e etapas de ensino mostra que o problema educacional brasileiro está longe de ser resolvido. O que precisa avançar e porque não avança?
Redação
São Paulo, 11/08/2026
7.6 Minutos
Há 2 perguntas que deveriam ocupar lugar central nas eleições de 2026: o que os governos fizeram pela educação — e o que pretendem fazer a partir de agora?
Parecem simples. As respostas, porém, exigem mais do que discursos, slogans ou a apresentação de um número isolado.
Os novos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), referentes a 2025, oferecem um ponto de partida importante para essa avaliação. Embora o Brasil apresente crescimento em todas as etapas da educação básica em relação a 2023: nos anos iniciais do ensino fundamental, o índice passou de 6,0 para 6,3; nos anos finais, de 5,0 para 5,3; e no ensino médio, de 4,3 para 4,5, ainda há muito a se fazer.
É uma melhora real. Mas não é motivo para acomodação.
Os dados do Ideb combinam dois elementos: o desempenho dos estudantes nas avaliações do Saeb e os indicadores de fluxo escolar, como aprovação. Por isso, ele é útil para acompanhar tendências, mas não deve ser confundido com uma fotografia completa da qualidade da educação.
CRESCER NÃO É O MESMO QUE SUPERAR
A primeira conclusão dos números de 2025 é positiva: o sistema educacional brasileiro avançou. Porém, a segunda é mais importante: avançou de maneira desigual.
Os anos iniciais continuam apresentando desempenho significativamente superior ao dos anos finais e, sobretudo, ao do ensino médio. A trajetória revela um problema conhecido: o sistema consegue produzir resultados relativamente melhores nos primeiros anos escolares, mas perde força à medida que o estudante avança.
Esse fenômeno deveria estar no centro dos programas eleitorais, e precisa responder a uma pergunta que busca profundidade: por que?
Não basta perguntar qual candidato promete construir mais escolas, distribuir mais computadores ou ampliar o tempo integral. É necessário perguntar: o que será feito para que o estudante aprenda mais, permaneça na escola e chegue ao ensino médio com uma formação sólida?
A diferença entre uma política educacional de curto prazo e uma política de Estado começa justamente aí.
O MAPA BRASILEIRO NÃO É HOMOGÊNEO
Os resultados nacionais também escondem enormes diferenças territoriais. Há estados e municípios que conseguiram construir políticas educacionais consistentes durante vários ciclos de governo. O Paraná, por exemplo, aparece entre os destaques nacionais em educação no Ranking de Competitividade dos Estados e vem mantendo posição elevada no desempenho educacional. O que isto revela, de fato?
Em sentido contrário, há redes que continuam enfrentando dificuldades persistentes.
O Rio de Janeiro, por exemplo, chegou às eleições de 2026 sob o debate de uma terceira queda consecutiva do Ideb estadual, enquanto na Bahia o resultado provocou forte disputa política entre os candidatos ao governo.
São Paulo também entrou no debate eleitoral carregando uma disputa sobre os números da educação. No primeiro debate entre os candidatos ao governo estadual, realizado em agosto, os dados educacionais foram utilizados politicamente e posteriormente submetidos a checagem jornalística.
Esse episódio contém uma lição para o eleitor: números educacionais precisam ser conferidos antes de serem transformados em argumento eleitoral.
O ELEITOR PRECISA OLHAR A TRAJETÓRIA
Uma das maiores armadilhas do debate eleitoral é comparar apenas a posição atual de um estado ou município.
Uma rede pode estar em primeiro lugar porque historicamente construiu uma política consistente. Outra pode estar em posição intermediária, mas apresentar crescimento acelerado. Uma terceira pode ter uma nota elevada, mas estar estagnada. São situações completamente diferentes. O leitor deve insistir nos por quês para chegar à verdade.
Por isso, a IE.Br propõe uma leitura baseada em cinco perguntas:
1. Cresceu? O indicador melhorou ao longo dos ciclos de avaliação?
2. Sustentou? A melhora permaneceu ou foi apenas episódica?
3. Distribuiu? O avanço chegou também às escolas e aos estudantes mais vulneráveis?
4. Construiu? Novas escolas – ou só fechou?
5. Os professores? Tiveram remuneração e condições reais de trabalho dignas atendidas?
6. E os estudantes? Foram respeitados em suas necessidades?
Todas estas perguntas são importantes. Todas merecem respostas, claras, comprováveis, auditáveis. Educação pública não pode ser avaliada apenas pela média dos melhores estudantes ou das melhores escolas. A qualidade de um sistema também aparece na capacidade de reduzir desigualdades. Contudo, a sexta questão merece toda a atenção possível.
O NOVO PNE MUDA O TAMANHO DA RESPONSABILIDADE
As eleições de 2026 têm uma particularidade histórica: elas ocorrem no início de um novo ciclo do Plano Nacional de Educação (PNE), que deverá orientar a política educacional brasileira na próxima década.
Isso significa que o debate não deveria se limitar a quatro anos de mandato. Governadores e presidente precisarão apresentar compromissos que dialoguem com uma estratégia de dez anos. Prefeitos, por sua vez, deverão articular suas políticas aos planos estaduais e nacional.
O eleitor deveria exigir, portanto, metas mensuráveis, prazos, orçamento e mecanismos de acompanhamento.
Prometer “melhorar a educação” não é uma política pública.
Dizer quantos estudantes serão alfabetizados, quanto será reduzida a evasão, qual será a meta de aprendizagem, como serão valorizados os professores, onde serão construídas escolas e quanto será investido por estudante — isso começa a ser uma política.
O ENSINO MÉDIO É O GRANDE ALERTA
O resultado de 4,5 no Ideb do ensino médio em 2025, embora superior aos 4,3 de 2023, deve ser lido com atenção. O ensino médio continua sendo uma das grandes fronteiras educacionais brasileiras.
É justamente nessa etapa que aparecem problemas associados à evasão, desigualdade, preparação para o trabalho, acesso ao ensino superior e continuidade dos estudos. Por que?
A eleição deveria colocar uma questão no centro do debate: Qual escola o Brasil quer oferecer aos jovens entre 15 e 17 anos? Uma escola apenas voltada para exames? Ou exclusivamente profissionalizante? A escola de formação geral? Ou uma escola capaz de articular ciência, tecnologia, cultura, trabalho, cidadania e projeto de vida?
A resposta determinará boa parte do futuro econômico e social do país.
EDUCAÇÃO NÃO DEVE SER PROMESSA DE CAMPANHA
O Brasil já conhece o ciclo: eleição, promessa, programa, mudança de governo e reinício. O problema educacional brasileiro é longo demais para caber em mandatos curtos. Os dados mais recentes mostram que é possível avançar. Também mostram que avançar alguns décimos não significa ter resolvido o problema.
O que o país precisa agora é transformar resultados em trajetória. Governos que melhoram devem explicar como melhoraram. Governos que pioram devem explicar por que pioraram.
E candidatos devem apresentar não apenas propostas, mas evidências de que sabem executá-las. Nas eleições de 2026, talvez a pergunta mais inteligente não seja “quem fala melhor, tem o discurso sobre educação?”.
Deveria ser:
Quem apresenta um projeto capaz de fazer o estudante aprender mais, permanecer na escola e ampliar suas possibilidades de futuro?
A resposta não está apenas nos palanques. Está nos dados. E está, sobretudo, na capacidade do eleitor de lê-los.
QUADRO DE LEITURA — BRASIL
| Indicador | 2023 | 2025 | Movimento |
|---|---|---|---|
| Anos iniciais do Ensino Fundamental | 6,0 | 6,3 | ▲ avanço |
| Anos finais do Ensino Fundamental | 5,0 | 5,3 | ▲ avanço |
| Ensino Médio | 4,3 | 4,5 | ▲ avanço |
Fonte: Inep/MEC — Ideb 2025. O Ideb combina fluxo escolar e desempenho no Saeb.
Para o eleitor de São Paulo eis os dados comparativos – fonte: Inep/MEC
Estado – Etapa – 2023 – 2025 – Variação
São Paulo Anos iniciais 6,5 6,6 +0,1
São Paulo Anos finais 5,4 5,5 +0,1
São Paulo Ensino médio 4,5 4,7 +0,2
PARA O ELEITOR
Antes de acreditar em uma promessa educacional, pergunte:
Qual é a meta? Qual é o prazo? Quanto será investido? Em que e Como será medido? Quem será responsável? O resultado alcança os estudantes mais vulneráveis?
Educação é direito.
Mas também é projeto de país.
Os dados utilizados nesta matéria estão neste link – INEP




















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