Ignorância, estupidez e alienação política. Explorar o medo a ignorância das pessoas simples, em relação ao complexo político, atacando e pondo fim à Educação, transgredindo o Conhecimento, apagando e ou distorcendo os fatos e a História, a fim de conseguir e manter-se no poder: em resumo, eis o modo de ser da extrema direita.
Luiz César Silva
Porto – Portugal, 07/09/2026
7.6 Minutos.
A ascensão contemporânea da extrema-direita não pode ser explicada simplesmente pela existência de indivíduos ignorantes ou incapazes de pensar. Uma explicação desse gênero, além de intelectualmente pobre, corre o risco de esconder os mecanismos sociais e políticos que tornam determinados discursos encantadores.
O fenômeno é muito mais complexo! Envolve alienação, desinformação, ressentimento, medo, perda de referências coletivas, manipulação emocional e, sobretudo, uma deterioração da capacidade de distinguir entre realidade, opinião, propaganda e preconceito.
A extrema-direita prospera, em grande parte, num ambiente em que o indivíduo se sente separado da sociedade, desiludido com as instituições e incapaz de compreender as causas essenciais dos problemas que enfrenta. É neste contexto que a alienação assume uma importância fundamental. Entretanto, um indivíduo alienado não é necessariamente aquele que não pensa.
Saber pensar é um diferencial.
Pode pensar constantemente, consumir informação diariamente e discutir política. A alienação manifesta-se, principalmente, quando o indivíduo deixa de compreender criticamente as estruturas que condicionam a sua própria existência. Problemas econômicos, precariedade trabalhista, perda de poder de compra, insegurança social, dificuldades no acesso à habitação ou degradação dos serviços públicos acabam sendo percebidos como experiências individuais, quando, de fato, possuem causas econômicas, políticas e estruturais.
Quando essas causas não são compreendidas, abre-se espaço para respostas simplistas. Em vez de perguntar por que razão determinada sociedade produz desigualdade, precariedade ou exclusão, torna-se mais fácil procurar um culpado imediatamente identificável. O estrangeiro, o imigrante, a minoria, o pobre, o refugiado, o intelectual, o jornalista, o político ou qualquer outro grupo transformado em inimigo pode passar a desempenhar essa função.
É precisamente aqui que a extrema-direita encontra uma das suas principais ferramentas políticas: transformar problemas complexos em narrativas simples, emocionalmente fortes e facilmente compreensíveis.
Apelo ao prazer e a facilidade
A ignorância desempenha função essencial nesse processo, mas é necessário compreender corretamente o conceito. Ignorância não significa falta de escolaridade, mas, sim, quando deixa de ser reconhecida como uma lacuna e passa a ser convertida em certeza. O indivíduo deixa de dizer “não sei” e passa a afirmar “eu sei como as coisas são”, apesar de não possuir fundamento algum para essa certeza.
As redes sociais intensificaram este fenômeno. Uma explicação econômica complexa dificilmente compete, em termos de impacto emocional, com uma mensagem que identifica imediatamente um inimigo e promete uma solução simples. A política passou a se transformar num conflito entre “nós” e “eles”. A extrema-direita compreende bem esta lógica vulgar.
Em vez de apresentar uma análise aprofundada sobre a realidade, oferece narrativa identitária: “existe um povo verdadeiro, existem forças que o ameaçam e existe alguém disposto a restaurar uma ordem supostamente perdida.” O discurso político deixa de depender de argumentos científicos e passa a depender da produção de sentimentos de medo, raiva, humilhação e pertencimento.
O medo mata a mente e alimenta preconceitos
É neste ponto que se torna necessário distinguir ignorância de estupidez. A ignorância pode ser corrigida pelo conhecimento. A estupidez é mais resistente porque pode existir mesmo diante do conhecimento. Uma pessoa pode receber informações contraditórias em relação ao que acredita e rejeitá-las.
Pode confrontar evidências e considerá-las falsas porque foram produzidas por uma instituição, jornalista, cientista ou grupo que passou a considerar inimigo. De outro modo, a estupidez política manifesta-se na recusa de submeter as próprias convicções à possibilidade de erro.
Em vez de utilizar a razão para testar uma crença, utiliza-a para defendê-la. Esta é uma das características mais perigosas do pensamento dogmático: a razão deixa de ser um instrumento de investigação e passa a funcionar como instrumento de justificação.
O problema também se relaciona com o ressentimento. Sociedades marcadas por desigualdade, precariedade e insegurança produzem indivíduos que experimentam uma sensação de perda de controle sobre a própria vida. Quando as instituições políticas tradicionais deixam de oferecer respostas convincentes, surge um espaço que pode ser ocupado por movimentos que prometem recuperar uma ordem perdida.
Na dor Maria vai com as outras. Fácil.
A extrema-direita apresenta a política como uma batalha pela recuperação de algo que teria sido roubado. Quais sejam, a identidade nacional, a segurança, a autoridade, a estabilidade econômica, os valores tradicionais ou uma determinada ideia de comunidade. Essa promessa possui força emocional porque oferece ao indivíduo algo que a análise racional dos problemas dificilmente oferece de imediato: um culpado e uma sensação de explicação.
É mais fácil dizer “o problema são os imigrantes” do que explicar décadas de políticas de habitação, alterações no mercado de trabalho, desigualdade de rendimentos, decisões fiscais, transformações demográficas e mudanças econômicas internacionais. É mais fácil culpar uma minoria identificável do que compreender sistemas complexos.
A simplicidade do raciocínio, portanto, não é um sinônimo de estupidez, mas pode tornar-se um instrumento de manipulação quando substitui deliberadamente a complexidade da realidade.
Nas prateleiras para consumo imediato
O indivíduo passa a ser reduzido a uma categoria à qual ‘pertence’ (rótulo). Este processo permite que a hostilidade seja apresentada como racionalidade. Não se afirma necessariamente “odeio aquela pessoa”; afirma-se que “aquele grupo representa uma ameaça”. O preconceito é convertido em suposta análise política.
É neste mecanismo que alienação e estupidez podem convergir. O indivíduo alienado procura uma explicação para a sua própria insegurança; a propaganda oferece-lhe uma explicação; o preconceito fornece um inimigo; e a repetição transforma a narrativa numa aparente evidência*.
Surge então um círculo vicioso: Quanto mais o indivíduo permanece dentro desse circuito, mais difícil se torna introduzir informações contraditórias. Qualquer crítica passa a ser interpretada como prova de que o inimigo existe. O sistema torna-se autorreferencial.
É por isso que a luta contra a extrema-direita não se limita entre os“ignorantes” ou “estúpidos”, aos seus apoiantes. Essa atitude pode produzir o efeito contrário ao pretendido. O insulto reforça a sensação de exclusão e confirma a narrativa segundo a qual determinadas elites desprezam “o povo”.
Saber perguntar molda a opinião
A democracia depende da capacidade de distinguir entre o direito de alguém possuir uma opinião e a validade dessa opinião. Nem toda a opinião merece o mesmo peso epistemológico. Uma afirmação factual pode ser verificada; uma interpretação pode ser discutida; uma teoria pode ser confrontada com evidências. A liberdade de expressão não transforma uma falsidade em verdade.
Por isso, a educação democrática precisa de ser mais ambiciosa do que a simples transmissão de conteúdos. Deve desenvolver literacia mediática, pensamento crítico, compreensão histórica e capacidade de reconhecer manipulação emocional. Deve-se ensinar o indivíduo a perguntar: Quem está a afirmar isto? Com que evidências? Qual é a fonte? Que interesses podem estar envolvidos? O que está a ser omitido? Existem outras explicações possíveis?
A questão da extrema-direita não é apenas uma questão eleitoral, mas uma questão sobre a qualidade do pensamento numa sociedade. Quando as pessoas deixam de distinguir conhecimento de opinião, fato de propaganda e crítica de ódio, o espaço público torna-se vulnerável à manipulação.
A ignorância não é apenas a ausência de informação, mas ausência de instrumentos para avaliar a informação.
Assim como a alienação é a perda da capacidade de compreender criticamente o lugar que ocupamos nela. A burrice não é simplesmente possuir menos inteligência. É a incapacidade de utilizar adequadamente o raciocínio numa determinada situação. E a estupidez política surge quando o indivíduo, mesmo tendo condições para reconsiderar as suas posições, prefere preservar a certeza, o preconceito ou a identidade ideológica.
Em síntese, a verdadeira oposição à extrema-direita, portanto, não se constrói pela indignação moral. Constrói-se por meio do conhecimento, da organização social, do pensamento crítico e da capacidade de oferecer explicações mais convincentes para os problemas reais que alimentam o descontentamento.
Assim, combater a alienação significa devolver às pessoas a capacidade de compreender a realidade em que vivem. O combate à ignorância significa criar condições para que possam aprender. Bem como, combater a estupidez significa recuperar a disposição para questionar as próprias certezas.
E, portanto, combater a extrema-direita, no plano intelectual e democrático, significa impedir que o medo, o ressentimento e o preconceito sejam apresentados como substitutos da compreensão.
Luiz Cesar Silva – Profº PosDoc Adm.Pública/Pesquisador em Economia – Un. do Porto




















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