Série: Cultura e Inteligência Educacional Brasileira
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A Literatura como educação da sensibilidade, do pensamento e da liberdade
Melvor Groë
São Paulo, 04/09/2026
7.6 Minutos.
Existe uma maneira curiosa de empobrecer a leitura: transformar o livro em uma obrigação. Ler para a prova. Ler para cumprir uma lista. Ou para acumular títulos, porque alguém disse que determinado livro é indispensável.
Tudo isso pode produzir leitores que conhecem livros sem necessariamente terem descoberto o que a leitura pode fazer com uma pessoa. Ler diferentes estilos é outra experiência. Não se trata de colecionar autores para parecer culto. Trata-se de permitir que diferentes formas de literatura produzam diferentes movimentos dentro de nós.
Um romance demora. Um poema condensa. Um conto interrompe. Uma peça teatral coloca a palavra em cena. Uma crônica observa o cotidiano. Um ensaio provoca o pensamento. Uma narrativa policial exige atenção. A literatura infantil pode devolver ao adulto uma simplicidade que ele perdeu.
Cada forma literária constrói uma maneira diferente de olhar.
Ler também é mudar de lugar
Quem lê apenas aquilo que confirma suas próprias preferências corre o risco de transformar a leitura em espelho. Muitas vezes deformado. Porém, os grandes livros também funcionam como janela. Permitem conhecer épocas que não vivemos, pessoas que nunca encontraremos, sociedades diferentes, conflitos que não experimentamos e pensamentos dos quais talvez discordemos. Acha pouco?
Pois, é nesse ponto que a leitura deixa de ser somente entretenimento e passa a exercer uma função cultural. Uma boa leitura de um bom livro leva o leitor a atravessar fronteiras sem abandonar a própria identidade. Permite-lhe conhecer outras perspectivas sem precisar adotá-las e aprender a discordar sem destruir.
Descobre que uma personagem pode pensar de maneira completamente diferente da sua e, ainda assim, ser compreendida, mesmo que o irrite, provoque, ou faça-o atravessar a rua e mudar de calçada.
Portanto, essa experiência – ler um bom livro, com calma, sem sentir-se obrigado tem enorme valor educativo.
Um professor também precisa de repertório
Há uma questão particularmente importante para a educação brasileira. Normalmente, costumamos cobrar do professor capacidade de formar leitores, mas nem sempre perguntamos que repertório de leitura estamos oferecendo ao próprio professor.
O docente não precisa ser especialista em literatura para ensinar matemática, ciências, geografia, história ou educação física, concorda? Ainda assim, continua sendo uma pessoa inserida em uma cultura. Sua capacidade de conversar, comparar, imaginar, interpretar e compreender diferentes experiências humanas também participa de sua formação profissional.
Uma dica é: saia de seu ambiente de trabalho. Um professor que lê amplia seu repertório de referências, acumula capital intelectual, sensível e socialmente integrado. Até porque repertório não é decoração intelectual. É reflexo do espírito do tempo, ético, caminho de múltiplas estradas. Oceano de mares diversos.
É ferramenta de trabalho. É fácil um metáfora encontrada em um romance iluminar uma aula. Se o professor é um bom leitor, um episódio histórico pode abrir uma discussão, ou poema pode criar uma pergunta, ao tocar os centros harmônicos de um ou vários alunos. Do mesmo modo uma crônica pode aproximar escola e cotidiano se o tempo for entendido como matéria prima para o estilo. Um ensaio bem escrito pode desafiar as suas certezas. Com certeza, a leitura circula entre as disciplinas porque a vida também circula.
O clássico não morreu
Existe também uma falsa oposição entre livros clássicos e livros contemporâneos, entretanto não precisamos escolher. Não é entre o quente o gelado. O clássico permanece porque continua oferecendo perguntas que os humanos sempre fizeram, mas que poucos ofereceram respostas. Eles nos lembram da nossa ignorância, ao nos colocar frente aos grandes dilemas da vida.
Por sua vez, o bom livro contemporâneo importa porque registra perguntas do nosso próprio tempo. Ler Machado de Assis não impede o leitor de ler um autor atual. A leitura dos poemas ou das peças teatrais de William Shakespeare não elimina a literatura brasileira contemporânea. Poesia não causa o abandono da prosa narrativa. Ler literatura estrangeira não diminui a brasileira.
Ao contrário. Pense que todo país produziu e produz excelentes escritores, e nunca se deixe levar pelos prêmios Nobel, jabutis ou outros quaisquer. Assim também, como não se deixe encantar com a grande feira internacional – bienal – litoral dos livros. São importantes, mas acontecem dentro de outras intenções menos literárias.
Quanto mais amplo o repertório, maior a capacidade de estabelecer relações.
O leitor começa a perceber que determinados conflitos atravessam séculos: poder, amor, perda, ambição, desigualdade, medo, liberdade, pertencimento. Mudam as roupas, as tecnologias e os cenários. Mas, as mais importantes perguntas humanas permanecem à procura de respostas.
A literatura educa a atenção
Vivemos cercados por mensagens rápidas e fragmentos. São inúmeras notificações diárias, de vídeos curtos e opiniões instantâneas. Isso é um erro que se repetido muitas vezes pode nos levar a uma deficiência intelectual por comportamento adaptativo. Vício. Entretanto, a leitura longa exige uma coisa que se tornou muito preciosa e cada vez mais rara: atenção sustentada. É preciso permanecer diante de uma frase, para saber voltar, se necessário e interpretar corretamente a palavra, ou o silêncio que ela provoca. Esta espera nos dá tempo para imaginar.
Uma boa leitura não entrega tudo imediatamente. Ela exige participação. E talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da literatura para a educação contemporânea: recuperar a capacidade de permanecer diante de alguma coisa sem exigir recompensa instantânea, prazer imediato.
Ler não é fugir do mundo
Às vezes se diz que ler é uma forma de escapar da realidade. Lembrei de uma colega de ginásio que deu um livro ao meu irmão, cuja capa ilustra bem esta ideia. Nela um ratinho voava sobre nuvens dentro de um livro aberto. Lá embaixo a cidade, o campo, as árvores, seguramente alguns gatos e as pessoas…É uma interpretação. Pode ser.
Mas também pode ser justamente o contrário. Há livros que nos devolvem ao mundo com olhos diferentes. Depois de conhecer determinada personagem, talvez enxerguemos de outra maneira alguém que encontramos na rua.
Depois de acompanhar uma história de pobreza, guerra ou migração, talvez uma notícia deixe de ser apenas uma notícia.Ao ler sobre uma sociedade diferente, talvez passemos a compreender melhor a nossa. E querer mudá-la ou corrigir certas distorções.
A literatura não substitui a realidade. Claro. Entretanto, ela pode aumentar nossa capacidade de percebê-la.
Por isso, vários estilos
Ler vários estilos é uma forma de não deixar que uma única linguagem ocupe todo o espaço da imaginação. Um bom Romance (estilo literário) para permanecer. Poesia, principalmente a moderna, que por si só engloba diversos estilos ou escolas – estudamos isto no segundo grau – para condensar. Contos ajudam muito a concentrar e comparar dilemas e crises cotidianas, ou nos envolver numa fantasia, o que é muito melhor do que seriados ou novelas comerciais.
Já o teatro nos prepara para escutar vozes, às vezes de gente comum, outras vezes de grandes personagens, importantes pensadores, ou atores sociais… E uma boa crônica nos chama para observar.
Ensaio para pensar, porque como dizia o mestre Massaud Moisés em seu Dicionário de termos literários, um ensaio é uma tentativa de trazer coerência às ideias lançadas no texto. É uma provocação às inteligências leitoras, na busca por respostas, análises, novas interpretações, sendo portanto é um texto aberto.
Assim, a Literatura brasileira nos convida a reconhecer nossas próprias paisagens humanas, sociais, musicais, geográficas, históricas… A densidade psicossocial que nos envolve. E a Literatura estrangeira nos prepara para embarcar em viagens, em tempos e climas diversificados ao atravessar outras paragens. Clássicos para conversar com o tempo. Contemporâneos para conversar com o presente.
No fundo, creio que devemos nos perguntar além da quantidade de livros uma pessoa consegue ler. Não é para tornar-se um bibliógrafo, em que pese a importância de um, e, obviamente sem diminuir-lhe a função de colecionador ou “acumulador”.
A ideia por trás de uma boa leitura é está nos mundos que ela consegue visitar sem deixar de ser ela mesma. Por isso mesmo a leitura pertence à inteligência educacional. Porque educar não é apenas transmitir informações. É bem mais: ampliar a capacidade humana de compreender, imaginar, escolher e julgar.
E um bom livro pode fazer exatamente isso.
Cultura é uma camada da Inteligência Educacional Brasileira.
O estudante em primeiro lugar.
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