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A Urna como Altar – encruzilhada da consciência política

Dossiê Especial: “Para aprender a votar. Considerações” — AEscolaLegal

Jorge Miklos

Introdução: A Ilusão do Eleitor Racional

A tradição iluminista nos legou uma ficção reconfortante: a de que o cidadão democrático entra na cabine eleitoral munido de uma balança de precisão cartesiana. Imagina-se que, diante da urna, o eleitor compute índices macroeconômicos, examine criticamente programas partidários, pondere sobre o histórico orçamentário e tome uma decisão estritamente pragmática.

A clínica psicológica, a história cultural e o cotidiano das democracias de massa, contudo, desmentem essa premissa a cada ciclo eleitoral.

Quando o cidadão se encontra a sós com a máquina de votar, o isolamento físico da cabine é apenas aparente. Psiquicamente, aquele espaço de um metro quadrado está apinhado de presenças invisíveis: lealdades ancestrais, medos difusos de aniquilação moral, ressentimentos acumulados, afetos tribalizados e a busca desesperada por amparo.

A urna eletrônica, longe de funcionar unicamente como um terminal de registro cívico, opera como um altar secular sobre o qual depositamos nossas angústias existenciais e nossos anseios de redenção.

O voto, portanto, não é meramente uma escolha aritmética; é um julgamento moral e uma manifestação dramática da psique coletiva. Para compreender como o brasileiro decide, é imperativo descer aos subterrâneos do que habitualmente se rotula como “voto emotivo” — não para rebaixá-lo à categoria de irracionalidade vulgar, mas para reconhecer os influxos míticos e arquetípicos que orientam o destino da pólis.

1. O Desamparo Coletivo e a Sedução Messiânica

A cultura política brasileira foi historicamente tecida sob o signo da tutela e do messianismo. Das raízes do sebastianismo lusitano às insurreições sertanejas de Canudos e Contestado, passando pelos ciclos do populismo moderno, persiste no imaginário social a expectativa de um guia extraordinário: uma figura paternal capaz de transcender a lentidão burocrática das instituições e redimir a nação de suas feridas crônicas.

Sob a lente da psicologia analítica, essa propensão não decorre de mera deficiência educacional, mas da constelação do arquétipo do Salvador em momentos de aguda vulnerabilidade coletiva. Quando o tecido social se fragmenta — sob o peso da insegurança econômica, da violência urbana e da perda de marcos identitários —, o ego coletivo experimenta um profundo estado de desamparo e regressão psíquica.

Nesse estado de vulnerabilidade, a complexidade da realidade política torna-se insuportável. Exige-se uma síntese rápida, e a psique recorre ao mito. O líder político deixa de ser um servidor público contratado temporariamente pelo corpo cívico e passa a ser revestido pela imago parental arquetípica: o “Pai Protetor” que acolhe ou o “Herói Guerreiro” que expurga o mal com a espada.

2. A Projeção da Sombra e a Fabricação do Bode Expiatório

Se há um Salvador, é estruturalmente obrigatório que haja um Algoz. Toda liturgia salvífica requer um demônio a ser combatido. É aqui que opera a engrenagem mais perigosa do comportamento de massas: a projeção da Sombra.

Carl Gustav Jung denominou Sombra a totalidade daqueles traços, pulsões e contradições que o indivíduo ou o grupo social recusa reconhecer em si mesmo, reprimindo-os por incompatibilidade com a imagem idealizada de si, a Persona. Ocorre que aquilo que não é conscientizado e integrado não desaparece; ao contrário, ganha densidade e é fatalmente projetado no mundo exterior.

Na arena política contemporânea, impulsionada pela mediação algorítmica e pela comunicação de choque, a projeção da Sombra atinge níveis epidêmicos. A sociedade se cinde em um maniqueísmo infantil: de um lado, reunimos todas as virtudes, a retidão moral e o amor à pátria; do outro, depositamos a decadência, a corrupção, a perversão e a ameaça de destruição social.

O adversário político deixa de ser um concorrente legítimo no espaço público e é rebaixado à condição de inimigo ontológico, um monstro simbólico. O voto, então, converte-se em um instrumento de exorcismo. Vota-se não a favor de um projeto de país, mas para obliterar a Sombra projetada no outro.

Ao apertar o botão verde, o eleitor tem a sensação mágica de que está purificando o mundo de seus próprios fantasmas inconscientes, alheio ao fato de que, ao demonizar o outro, apenas fortalece a divisão interna de sua própria sociedade.

3. A Fé como Gramática de Pertencimento

Não se pode compreender a decisão eleitoral no Brasil sem atentar para o papel da fé e da religiosidade. No entanto, o fator religioso na política não atua apenas pela mediação direta de lideranças eclesiásticas ou por cálculos confessionais de bancadas parlamentares. A sua força reside, sobretudo, no fato de que o sagrado oferece a gramática última do pertencimento.

Para o cidadão comum, a congregação, o terreiro ou o círculo de oração são frequentemente os únicos espaços de sociabilidade comunitária, suporte material e dignidade simbólica em territórios desassistidos pelo Estado. Quando a linguagem política absorve símbolos da guerra espiritual, da bênção, do martírio e da redenção, ela se comunica diretamente com o código afetivo fundamental desse eleitor.

O voto torna-se, então, uma reafirmação de fidelidade à comunidade de sentido a que ele pertence. Desviar-se dessa escolha equivaleria a romper com a própria identidade moral e comunitária. O julgamento político não se apoia no exame de teses teóricas, mas na sintonia afetiva: vota-se naquele que partilha os mesmos ritos, fala a mesma língua dos afetos e confirma o lugar do sujeito no cosmos social.

4. A Encruzilhada Ética: Da Massa ao Sujeito

O dossiê da AEscolaLegal formula a pergunta crucial: quantas dimensões precisam ser consideradas antes de apertar o botão da urna?

A resposta reside na distinção fundamental entre o contágio psíquico da massa e a individuação do cidadão. Quando operamos em massa, abdicamos da responsabilidade ética individual em favor do transe coletivo. “A massa não pensa; reage a gatilhos afetivos de medo e euforia”. O voto da massa é compulsivo, reativo e cego para suas próprias motivações profundas.

“Aprender a votar”, portanto, não significa anular os afetos — projeto tão estéril quanto impossível —, mas resgatar as próprias projeções. Exige que o eleitor faça uma pausa reflexiva na soleira da cabine eleitoral e tenha a coragem de perguntar a si mesmo:

Considerações Finais: O Julgamento na Urna

O voto é um julgamento. Mas todo julgamento autêntico exige discernimento, e o discernimento só nasce onde a consciência é capaz de diferenciar o que é fato daquilo que é delírio projetivo.

A cabine eleitoral é a encruzilhada democrática onde o Brasil se olha no espelho. Enquanto continuarmos a tratar a urna como um altar expiatório para eleger salvadores e sacrificar bodes expiatórios, permaneceremos prisioneiros dos nossos mitos de origem e da repetição neurótica da nossa história.

A maturidade cívica começa no instante exato em que o eleitor reconhece que a salvação mágica não virá pelo voto, mas a responsabilidade pelo destino comum depende da lucidez com que ele decide se posicionar diante do mundo.


Jorge Miklos – Graduado em História, Ciências Sociais e Psicologia, é mestre em Ciências da Religião e doutor em Comunicação pela PUC-SP, com pós-doutorado pela UFRJ. Atua nas interfaces entre comunicação, cultura, religião, psicologia analítica e imaginário social.