A carregar agora
×
A Esperança Vaga

A Esperança Vaga

…O desafio dos pesquisadores é preservar sua disposição de construir o futuro sem aceitar que a espera se torne uma condição permanente…

Afonso Peche Filho

Há uma forma de esperança que permanece mesmo quando os sinais de mudança são escassos. Ela acompanha quem continua trabalhando, preservando conhecimentos e formando pessoas, embora não consiga identificar no horizonte uma decisão capaz de modificar suas condições de existência. É uma esperança que resiste, mas procura onde se apoiar.

A pesquisa científica depende de uma relação particular com o tempo. Um experimento pode exigir anos; uma série de observações, décadas; a formação de uma equipe, sucessivas gerações. A capacidade de interpretar um solo, acompanhar uma bacia hidrográfica ou compreender o comportamento de uma cultura agrícola resulta de conhecimentos acumulados, confrontados e transmitidos.

Quando essa continuidade se fragiliza, a espera deixa de ser apenas um desconforto pessoal: passa a envolver a conservação de uma capacidade pública de compreender e agir.

Por isso, reorganizar a pesquisa exige conhecer aquilo que se pretende reorganizar. Organogramas e indicadores administrativos oferecem informações necessárias, mas insuficientes. É preciso compreender as relações entre pessoas, laboratórios, campos experimentais, coleções, registros e problemas sociais. Uma estrutura científica contém vínculos que nem sempre aparecem nos documentos de gestão. Alterá-la sem reconhecer esses vínculos pode comprometer justamente as capacidades que se deseja fortalecer.

Nesse cenário, a esperança dos pesquisadores pode assumir uma dimensão dolorosa. Espera-se que a relevância do trabalho seja percebida antes que suas condições de continuidade se desfaçam. E que o conhecimento acumulado seja considerado antes da dispersão das equipes. Espera-se que a experiência profissional encontre oportunidades de transmissão. O pesquisador permanece comprometido com um futuro que depende, em parte, de decisões sobre as quais possui pouca influência.

Essa espera também comporta uma contradição. A dedicação que mantém uma instituição funcionando pode tornar menos visíveis suas dificuldades. Quando profissionais compensam carências com esforço pessoal, improvisação e compromissos que ultrapassam suas atribuições, preservam atividades essenciais. Contudo, essa capacidade de sustentação pode alimentar a impressão de que as condições existentes são suficientes. A instituição continua entregando resultados, enquanto consome suas reservas humanas e materiais.

Explorar as possibilidades, não as pessoas

Seria injusto interpretar toda espera como passividade. Há pesquisadores que encontram nela uma maneira de proteger experimentos, manter vínculos e evitar que dificuldades presentes encerrem possibilidades futuras. Entretanto, a esperança precisa adquirir expressão pública. Precisa tornar compreensíveis as consequências das escolhas institucionais e mostrar por que a continuidade da pesquisa interessa à sociedade. O que está em questão ultrapassa a trajetória de uma categoria profissional: envolve a capacidade de responder a problemas específicos, sejam agrícolas, ambientais, sanitários e/ou sociais.

Uma ação política favorável deve oferecer à esperança elementos verificáveis: diagnóstico consistente, participação das equipes, prioridades justificadas, recursos e compromissos de continuidade. Também precisa assegurar espaço à pesquisa básica, cujos resultados nem sempre correspondem aos prazos do mercado ou do governo, mas ampliam as possibilidades de conhecimento das gerações seguintes.

A esperança vaga começa a encontrar direção quando a decisão pública reconhece que a ciência necessita de permanência, diversidade e confiança institucional.

Até lá, o desafio dos pesquisadores é preservar sua disposição de construir o futuro sem aceitar que a espera se torne uma condição permanente. Esperar por uma política favorável à ciência é legítimo. Fazer dessa espera um destino institucional significa deixar o futuro depender de uma promessa que nunca encontra data para começar.

Afonso Peche Filho – Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

Engo. Agrônomo - Doutor em Ciências Ambientais pela UNESP. Mestre em Engenharia de Biossistemas - Mecanização Agrícola Conservacionista e Gestão Ambiental . Pesquisador IAC - SP