Como avaliar seu voto para além do Barulho Eleitoral
Vivemos tempos bastante complicados no Brasil e no mundo. Crise ambiental global, aumento da concentração de renda e das desigualdades sociais, mudanças tecnológicas que anteveem um futuro profundamente incerto, a pressão para consumir que estimula o endividamento pessoal (mesmo que com pouca renda) … são dúvidas que assolam todas as pessoas, principalmente as que não tem consciência desse movimento estrutural histórico vivido.
O reflexo claro disso é a profusão de candidatos que aparecem com soluções fáceis e simples (“bandido bom é bandido…”, fim da roubalheira dos impostos, redução da maioridade penal, reforma da previdência…) para problemas extremamente complexos que tendem a se aprofundar ainda mais.
Na hora de escolher um candidato, um dos erros mais comuns do eleitor, especialmente em tempos de redes sociais é sucumbir à retórica que aciona gatilhos emocionais, a quebra de decoro e a exploração do ressentimento. Apesar da demagogia barata, esse populismo estridente ganha espaço porque valida uma dor que é absolutamente real. As dúvidas contemporâneas crescentes são vistas na rotina do “moinho satânico” diário: é exaustiva, o dinheiro não chega ao fim do mês e a sensação de impotência diante do sistema é sufocante, daí o alcance tão potente da gritaria.
O problema não é a existência da emoção na política; é quando a emoção substitui a avaliação daquilo que está sendo proposto.
Nesse cenário de desespero, o político espetaculoso (“um representante do povo”) surge como um avatar da vingança por procuração. Ele xinga as instituições e quebra regras por quem se sente humilhado no cotidiano, oferecendo uma catarse instantânea de retaliação. Contudo, essa vingança é uma ilusão que aponta culpados fáceis e não altera em nada as bases materiais da vida. Pode, aliás, piorar muito quando tais representantes passam a advogar contra as próprias causas populares (quando votam pela manutenção da jornada 6×1, ou contra a isenção do IR para os que ganham até R$ 5 mil, ou advogam a troca da previdência social por um sistema de capitalização financeira, que defendem a manutenção dos privilégios fiscais dos mais ricos…a lista é extensa).
Por outro lado, o antídoto a esse show de horrores não deveria ser a frieza burocrática, as explicações socioeconômicas e históricas, planilhas de excel ou as lições de moral higienizadas. Torpedeado, ninguém tem paciência fiscal quando a urgência de pagar as contas é imediata. A racionalidade explicativa ao cidadão médio precisa ser mais visceral. Mostrar que o voto no barulhento radical pode produzir a sensação de resposta sem necessariamente produzir solução material.
Para votar além do estômago urgente, o eleitor poderia tentar aplicar três filtros práticos na hora da escolha, fazendo algumas perguntas:
- Validação real x exploração do medo: O candidato acolhe a sua revolta como o sintoma de uma engrenagem com problemas; ou apenas instrumentaliza o seu desespero para gerar ódio?
- Alívio material x vingança ilusória: A proposta do candidato traz caminhos palpáveis — comida mais barata, transporte mais pontual, crédito justo e alívio de renda —; ou alimenta o eleitor apenas com escândalos e ruído?
- Chão firme x isolamento: A plataforma do candidato realmente pensa em fortalecer redes de apoio e serviços públicos que deem segurança ao trabalhador; ou vende a promessa enganosa de que você deve vencer o sistema sozinho?
Nas urnas, ir Como avaliar seu voto para além do Barulho Eleitoral
significa recusar o show da retaliação estéril. O voto transformador não deveria ser um prêmio para quem grita mais forte na internet; mas, sim a escolha de projetos que entreguem (ou busquem entregar) um pouco de alívio, autonomia e dignidade concreta para o seu dia a dia.
Sobre o autor: Flávio Tayra – Profº Pesquisador Ms. Economia – Dr. Sociologia – UNIFESP
Pós-Doutorado em Saúde Ambiental (Política e Gestão Ambiental – USP)