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A Dignidade de Quem Trabalha a Terra

A Dignidade de Quem Trabalha a Terra

A DIGNIDADE DE QUEM TRABALHA A TERRA: UMA LEITURA AGROAMBIENTAL DE O APOCALIPSE DOS TRABALHADORES.

Falar de sustentabilidade na agricultura tornou-se quase inevitável. Fala-se em conservação do solo, uso eficiente da água, redução de emissões, biodiversidade, tecnologias de baixo impacto e resiliência climática. Tudo isso é necessário. Mas existe uma pergunta anterior, frequentemente menos visível: quem sustenta, com seu próprio trabalho, a agricultura que pretendemos tornar sustentável?

É nesse ponto que O apocalipse dos trabalhadores, de Valter Hugo Mãe, embora não seja um romance sobre agricultura, oferece uma poderosa chave de interpretação. Suas personagens pertencem ao universo daqueles cujo trabalho é indispensável e, paradoxalmente, pouco percebido. São pessoas que limpam, constroem, servem, carregam, cuidam e sobrevivem. A sociedade reconhece o produto de seu esforço, mas nem sempre reconhece plenamente a pessoa que existe por trás dele.

Transportada para o universo agrícola, essa percepção conduz a uma questão essencial: podemos considerar sustentável uma agricultura que conserva seus recursos naturais, mas desgasta silenciosamente as pessoas que nela trabalham?

A invisibilidade de quem produz

Vemos alimentos nas feiras e supermercados. Observamos lavouras produtivas, máquinas sofisticadas, índices de produtividade, volumes exportados e resultados econômicos. Entretanto, dificilmente enxergamos, nesses indicadores, as mãos que plantaram, conduziram, colheram, selecionaram e transportaram aquilo que chega à sociedade.

O trabalhador rural frequentemente desaparece atrás da própria produção. Essa invisibilidade aproxima o mundo agrícola da condição humana retratada por Valter Hugo Mãe. Não se trata simplesmente de pobreza ou dificuldade econômica. Trata-se de algo mais profundo: a redução da pessoa à função que desempenha.

Quando isso acontece, deixamos de perceber histórias, conhecimentos, afetos, expectativas e limites humanos. Passamos a enxergar apenas a força de trabalho. E nenhuma agricultura verdadeiramente sustentável pode ser construída sobre essa redução.

A terra não trabalha sozinha

Existe uma tendência contemporânea de interpretar a agricultura predominantemente por seus componentes técnicos: solo, água, máquinas, sementes, fertilizantes, dados, energia e tecnologias digitais. Entretanto, entre todos esses elementos existe permanentemente uma presença humana.

Alguém observa o solo e percebe que uma planta está diferente. Outro conduz uma máquina. Alguém decide quando plantar, conhece o caminho da água depois de uma chuva intensa. Alguém carrega consigo conhecimentos que não estão registrados em sensores, mapas ou planilhas.

O trabalhador agrícola não constitui apenas um componente operacional do sistema produtivo. Ele é também portador de memória, experiência e conhecimento territorial.

Quem trabalha continuamente uma área aprende a reconhecer manifestações discretas da paisagem: mudanças na consistência do solo, comportamento das plantas, aparecimento de determinadas espécies. Quais são caminhos preferenciais da enxurrada, e os locais onde a água permanece por mais tempo, os sinais de compactação, erosão ou perda de fertilidade. Há, portanto, uma inteligência associada ao trabalho. Reconhecê-la também é reconhecer dignidade.

Sustentabilidade precisa incluir pessoas

A ideia de sustentabilidade multidimensional ajuda a ampliar essa discussão.

Uma propriedade agrícola não pode ser considerada sustentável apenas porque apresenta indicadores ambientais satisfatórios. Sustentabilidade pressupõe, simultaneamente, integridade ecológica, viabilidade econômica e justiça social.

Essas dimensões são interdependentes. Um sistema economicamente rentável que degrada o solo compromete seu futuro. Um sistema ambientalmente correto que não remunera adequadamente quem produz dificilmente permanecerá viável. E em um sistema produtivo eficiente que submete trabalhadores a condições indignas contém uma contradição ética em sua própria estrutura.

Por isso, talvez seja necessário acrescentar aos indicadores convencionais uma pergunta simples:
Como vivem as pessoas que tornam possível essa produção?

Essa pergunta modifica profundamente a leitura da propriedade agrícola. Passamos a observar não apenas produtividade por hectare, conservação do solo ou eficiência hídrica, mas também condições de trabalho, segurança, remuneração, moradia, acesso à água, alimentação, descanso, capacitação, reconhecimento e participação nas decisões.

A sustentabilidade deixa então de ser apenas atributo do sistema produtivo e passa a ser também qualidade das relações existentes dentro dele.

Justiça Social como componente agroambiental

Durante muito tempo, questões sociais e ambientais foram tratadas como campos relativamente separados. Entretanto, uma perspectiva agroambiental mais amadurecida exige reconhecer sua interdependência.

Não existe paisagem sustentável construída sobre relações humanas degradantes. Da mesma forma que uma agricultura responsável deve evitar erosão, contaminação da água e perda de biodiversidade, ela deve também evitar aquilo que poderíamos chamar de erosão da dignidade humana. A metáfora é pertinente. O solo pode perder lentamente sua estrutura sem que o processo seja imediatamente percebido. A dignidade também.

Pequenas desvalorizações, jornadas excessivas, ausência de reconhecimento, insegurança, exposição desnecessária a riscos e impossibilidade de participação podem acumular-se silenciosamente. Quando finalmente percebemos o problema, grande parte da estrutura social que sustentava aquele ambiente de trabalho já pode estar fragilizada.

O trabalho não pode consumir o trabalhador

Talvez uma das provocações mais fortes que podemos transportar de O apocalipse dos trabalhadores para o universo rural esteja justamente na relação entre trabalho e existência. Trabalhamos para sustentar a vida.

Mas determinadas formas de organização produtiva podem inverter essa relação, fazendo com que a própria vida seja progressivamente consumida pelo trabalho. Na agricultura, essa questão assume particular importância. O trabalho rural pode envolver esforço físico intenso, exposição climática, riscos operacionais, sazonalidade, longas jornadas e diferentes formas de vulnerabilidade.

Tecnologia e mecanização deveriam, portanto, ser avaliadas também por sua capacidade de reduzir penosidade e ampliar dignidade. Uma máquina agrícola não representa progresso apenas porque aumenta hectares trabalhados por hora. Representa progresso quando, além de melhorar a eficiência, reduz riscos, diminui esforços desnecessários e oferece melhores condições para quem realiza a operação. A inovação agrícola possui, nesse sentido, uma dimensão ética.

Quem cuida da terra também precisa ser cuidado

A agricultura contemporânea tem redescoberto a importância do cuidado. Cuidar do solo e da água. Cuidar das nascentes, da biodiversidade. Das árvores, dos polinizadores e dos fragmentos florestais. É necessário completar essa sequência: cuidar de quem cuida da terra.

Essa formulação aparentemente simples possui consequências profundas. O trabalhador deixa de ser considerado apenas recurso humano e passa a ser reconhecido como sujeito do território agrícola. Ele observa, interpreta, decide, aprende e transforma o ambiente. Participa da construção cotidiana da paisagem produtiva. Sua dignidade, portanto, não pode ser externa ao planejamento agroambiental.

Uma propriedade agrícola verdadeiramente sustentável

Uma propriedade ecologicamente organizada deveria ser também humanamente organizada. Isso significa pensar áreas de produção, proteção, circulação, construções e infraestrutura não somente segundo critérios agronômicos e ambientais, mas considerando as pessoas que vivem e trabalham nesses espaços.

Onde descansam? Como se deslocam? Onde se alimentam? Existe sombra? Existe água potável acessível? Os ambientes de trabalho são seguros? As máquinas oferecem condições adequadas de operação? Os trabalhadores participam da identificação dos problemas? Seus conhecimentos são escutados? São tratados como executores ou como participantes do processo produtivo? Essas perguntas deveriam fazer parte da própria leitura ecológica da propriedade. Porque ecologia também significa relações.

O ouro patrimônio da Agricultura

Quando pensamos no patrimônio agrícola, lembramos da fertilidade do solo, da disponibilidade de água, da biodiversidade, sementes, máquinas, das construções e do conhecimento tecnológico acumulado. Mas existe outro patrimônio, frequentemente menos contabilizado: as pessoas que aprenderam a trabalhar aquela terra.

São trabalhadores, agricultores, técnicos e famílias que carregam conhecimentos construídos pela experiência. Perder essas pessoas, desvalorizar seus saberes ou tornar sua permanência no campo humanamente inviável também representa perda patrimonial. Essa é outra das contribuições mais profundas que uma leitura agroambiental de Valter Hugo Mãe pode oferecer. O romance nos obriga a olhar novamente para aqueles que normalmente permanecem atrás do resultado de seu próprio trabalho.

Na agricultura, esse olhar conduz a uma conclusão inevitável: não existe solo saudável em uma agricultura socialmente adoecida; não existe paisagem verdadeiramente sustentável onde a dignidade humana foi excluída do planejamento.

Por isso, entre os princípios de uma nova ética agroambiental talvez devêssemos inscrever um fundamento elementar: a terra precisa ser cuidada, mas quem cuida da terra também precisa ser cuidado.

REFERÊNCIA CONSULTADA/RECOMENDADA:
MÃE, V.H.; O apocalipse dos trabalhadores. Editora Cosac Naify. São Paulo – SP. 2013. 192p.

Afonso Peche Filho – Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

Engo. Agrônomo - Doutor em Ciências Ambientais pela UNESP. Mestre em Engenharia de Biossistemas - Mecanização Agrícola Conservacionista e Gestão Ambiental . Pesquisador IAC - SP