Dossiê – Aprender a votar – Avaliar um presidente exige mais do que reproduzir o discurso construído pelo próprio governo.
Luiz César Silva
A política contemporânea possui enorme capacidade de produzir narrativas, promessas, disputas simbólicas e interpretações que, muitas vezes, acabam por obscurecer aquilo que deveria constituir o centro de qualquer avaliação pública: os resultados efetivamente produzidos pela ação do Estado.
Entre aquilo que um governo promete, aquilo que planeja, aquilo que executa e aquilo que efetivamente entrega à sociedade, há um caminho que precisa ser examinado.
Ao reassumir a Presidência para um terceiro mandato, em 2023, Lula apresentou como algumas de suas principais marcas políticas a retomada de políticas públicas, a recuperação da capacidade de atuação do Estado — em especial como indutor das políticas industriais —, a ampliação dos investimentos públicos e a expansão dos programas sociais.
A avaliação de seu governo, portanto, deve considerar em que medida essas propostas se traduziram em decisões administrativas, políticas efetivamente implementadas e resultados concretos para a sociedade. Sob esses critérios, o terceiro governo Lula apresenta um conjunto de resultados que devem ser ponderados.
O desempenho da economia brasileira.
Entre 2023 e 2025, o PIB brasileiro apresentou crescimento médio de cerca de 3% ao ano, acima da média de crescimento da América Latina e do Caribe (2,3%) no período. Em comparação com a economia mundial, o desempenho brasileiro ficou próximo da média global (3,25%). O crescimento não ficou restrito a um único setor: agricultura, indústria e serviços contribuíram para a expansão da atividade econômica. Mais importante do que um número isolado é destacar que o período foi caracterizado pela manutenção de uma economia em expansão (IMF, 2025).
Mercado de trabalho. O desemprego caiu de forma consistente. A taxa de desocupação de 5,1%, registrada no trimestre encerrado em dezembro de 2025, foi a menor da série histórica da PNAD Contínua. No resultado anual, a taxa média de desocupação ficou em 5,6%, também o menor nível registrado desde o início da série, em 2012 (Vales & Soares, 2025). Esses resultados possuem extrema relevância social porque emprego não representa apenas uma estatística macroeconômica: significa renda, autonomia, capacidade de consumo e maior segurança para as famílias.
Renda do trabalho. O avanço do emprego foi acompanhado pelo crescimento do rendimento real dos trabalhadores. Em 2025, o rendimento médio real dos trabalhadores alcançou cerca de R$ 3.367, enquanto a massa anual de rendimentos apresentou crescimento real expressivo em relação aos anos anteriores (IBGE, 2026). O crescimento da renda é importante porque permite avaliar a qualidade da expansão econômica: não basta que o PIB cresça; é necessário verificar se parte desse crescimento chega à população mais vulnerável.
Política de valorização real do salário mínimo.
Entre 2023 e 2025, a política de valorização do salário mínimo proporcionou ganhos reais sucessivos, com aumento do poder de compra do piso nacional. Os ganhos reais foram de aproximadamente 2,8% em 2023, 4,7% em 2024 e 2,6% em 2025 (DIEESE, 2025). Trata-se de uma medida com efeitos que ultrapassam os trabalhadores diretamente remunerados pelo salário mínimo, alcançando aposentadorias, benefícios previdenciários e programas sociais vinculados ao piso nacional.
Investimentos públicos. Depois de um longo período marcado por restrições fiscais, baixo investimento estatal e dificuldades de planejamento de longo prazo, o governo recuperou a capacidade de investimento da União. Entre 2023 e 2025, o investimento público do Governo Central apresentou crescimento real médio de 22,13% a.a. (Ministério da Fazenda, 2026), indicando uma forte expansão em relação ao governo anterior, no qual o crescimento real médio foi de apenas 1,31% a.a. Essa mudança é importante porque infraestrutura, saneamento, transporte, energia, habitação e equipamentos públicos dependem de investimentos que, em linhas gerais, não são realizados pelo setor privado.
Novo PAC e a retomada do planejamento. A retomada do investimento e do planejamento público através do Novo PAC em 2023. O programa estabelece cerca de R$ 1,3 trilhão em investimentos entre 2023 e 2026 e, até agosto de 2025, já havia executado R$ 944,8 bilhões, equivalentes a 70,8% do montante. No âmbito do Orçamento Geral da União, foram pagos R$ 117,7 bilhões em ações do Novo PAC entre 2023 e 2025. (Ministério do Planejamento e Orçamento).
Bolsa Família e as políticas de transferência de renda.
O governo reorganizou o programa, ampliou sua integração com outras políticas públicas e procurou combinar transferência de renda com exigências relacionadas à saúde e à educação. Entre 2023 e 2025, o Bolsa Família mobilizou aproximadamente R$ 500 bilhões em recursos federais, mantendo despesas anuais próximas de R$ 170 bilhões. A importância dessa política jamais deve ser analisada apenas pelo montante de recursos transferidos, mas por sua capacidade de reduzir a pobreza extrema, assegurar uma renda mínima às famílias em situação de vulnerabilidade e estimular o consumo e a atividade econômica. Cada R$ 1 transferido pelo Bolsa Família gera entre R$ 1,46 e R$ 1,96 de acréscimo no PIB, devido principalmente ao estímulo ao consumo das famílias de baixa renda (DIEESE, 2025).
Insegurança alimentar. Os dados referentes ao período mais recente contribuíram para a saída do país do chamado Mapa da Fome da FAO. Segundo a FAO, a prevalência de subalimentação no país ficou abaixo de 2,5% no triênio 2022–2024. Além disso, a proporção da população em situação de insegurança alimentar grave caiu de 6,6% no triênio 2021–2023 para 3,4% em 2022–2024.
No mesmo período, cerca de 11 milhões de pessoas deixaram a situação de insegurança alimentar grave. Esses dados indicam avanços importantes no combate à fome e na ampliação do acesso da população à alimentação (Araujo & Pinto, 2025).
Déficit habitacional. A política habitacional foi retomada com o relançamento do Minha Casa, Minha Vida. Em 2023, foram contratadas mais de 490 mil moradias, sendo mais de 185 mil destinadas a famílias com renda mensal de até R$ 2.640. Até dezembro de 2025, o programa alcançou 2 milhões de unidades habitacionais contratadas, com investimentos de aproximadamente R$ 340 bilhões. Além disso, até outubro de 2025, 136,2 mil moradias que estavam paralisadas ou em ritmo lento haviam sido retomadas, das quais mais de 48 mil já tinham sido entregues (Ministério das Cidades).
Esses números demonstram a ampliação da política habitacional e a retomada de obras que estavam paralisadas. Além disso, houve a contratação de novas unidades em diferentes regiões do país, com parte dessas contratações direcionada a localidades com maior necessidade habitacional.
Capacidade administrativa do Estado. A mudança de governo significou também a reconstrução de estruturas, programas e mecanismos de coordenação que haviam sido descontinuados. Ministérios e políticas públicas foram reorganizados, programas federais foram retomados e houve tentativa de recuperar a capacidade do Estado de formular políticas de médio e longo prazo. Em uma democracia, a administração pública precisa possuir instituições capazes de executar políticas de maneira permanente e previsível.
SUS. A partir de 2023, houve ampliação dos investimentos e da retomada de programas nacionais de saúde. No orçamento daquele ano foram incorporados R$ 22 bilhões adicionais para a área, sendo R$ 10 bilhões destinados à continuidade de serviços existentes e R$ 12 bilhões à expansão de ações e serviços de saúde. Entre as principais ações, destaca-se a expansão do Mais Médicos, que chegou a 26.756 profissionais em atividade em 2024, um aumento de 108% em relação a 2022. No mesmo período, a Saúde da Família alcançou 53.356 equipes em funcionamento, após a criação de mais de 4.750 novas equipes (Ministério da Saúde)
Farmácia Popular – recebeu mais de R$ 3,3 bilhões em 2024 e beneficiou aproximadamente 24 milhões de pessoas. O programa passou a oferecer gratuitamente 95% dos medicamentos e insumos disponíveis (Ministério da Saúde).
Fazendo mais
Educação. A partir de 2023 houve a retomada e a ampliação de políticas federais voltadas à educação básica, ao ensino superior e à formação profissional. Entre as novas iniciativas, destaca-se o Pé-de-Meia, criado para estimular a permanência e a conclusão do ensino médio público, com incentivos financeiros que podem chegar a R$ 9.200 por estudante ao longo da etapa.
Na educação básica, o Programa Escola em Tempo Integral foi criado para ampliar a oferta de matrículas em jornada integral. Em 2024, foram contratadas 684 escolas em tempo integral e 1.178 creches e pré-escolas por meio do Novo PAC, com R$ 13,3 bilhões investidos na educação básica entre 2023 e 2024 (Ministério da Educação).
Transição energética e ambiental. O governo retomou a agenda climática como uma das áreas de sua política ambiental e econômica, com ações voltadas à redução do desmatamento, ao desenvolvimento sustentável e à transição para uma economia de baixo carbono. Um dos principais resultados foi a redução do desmatamento na Amazônia. A área desmatada caiu de 9.064 km² em 2023 para 6.288 km² em 2024, redução de 30,6%. Em relação a 2022, a redução acumulada chegou a 45,7% (INPE, 2026).
Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm). O Fundo Amazônia alcançou R$ 1,76 bilhão em recursos desembolsados e 119 projetos apoiados até 2024, destinados à prevenção do desmatamento e do uso sustentável da floresta (INPE, 2026).
O que se pode comprovar
Em síntese, esses resultados permitem identificar uma primeira dimensão do governo Lula: houve, de fato, capacidade de transformar parte das prioridades anunciadas em políticas públicas concretas. Crescimento econômico, geração de empregos, aumento da renda, recuperação dos investimentos, retomada de programas sociais, expansão da política habitacional, ações na saúde e na educação e a melhora de indicadores de segurança alimentar constituem elementos que não podem ser ignorados em uma avaliação baseada exclusivamente na retórica política.
Isso, contudo, não significa que a avaliação do governo possa se encerrar nesses indicadores. Resultados conjunturais não necessariamente representam transformações estruturais.
Uma economia pode crescer sem resolver problemas de produtividade; o desemprego pode cair sem que isso signifique uma transformação profunda na qualidade dos postos de trabalho. A transferência de renda pode reduzir vulnerabilidades sem eliminar as causas estruturais da pobreza. Além disso, o aumento dos investimentos públicos pode não produzir os resultados esperados, caso não seja acompanhado por eficiência, planejamento e capacidade de execução.
É nesse ponto que a questão fiscal assume importância. O crescimento da atuação do Estado precisa ser acompanhado pela análise da qualidade do gasto público e da capacidade de financiar políticas públicas duradouras. É necessário entender se os recursos foram utilizados de forma mais eficiente. A mesma lógica se aplica à infraestrutura.
A trilha real do crescimento
O Novo PAC representa uma importante retomada da capacidade de investimento do Estado, mas seu sucesso administrativo dependerá da transformação das obras concluídas e dos serviços efetivamente disponibilizados. A avaliação do governo precisa acompanhar todo esse processo: promessa, planejamento, orçamento, execução e resultado.
Nesse aspecto, a principal questão sobre Lula não é saber se seu governo produziu mudanças, mas identificar a extensão e a qualidade dessas. Os dados permitem afirmar que houve entregas concretas em diversas áreas. Entretanto, também mostram que permanecem desafios: sustentabilidade fiscal, qualidade do gasto público, produtividade econômica e infraestrutura. Entretanto, esses problemas não são solucionáveis por um único mandato. São políticas de resposta a longo prazo. O desafio para Lula, portanto, é transformar resultados positivos de curto e médio prazo em mudanças a longo prazo.
A pergunta central permanece: o que Lula efetivamente entregou? Os dados indicam entregas concretas em áreas como crescimento econômico, emprego, renda, investimento público, programas sociais, habitação, saúde, educação e segurança alimentar. Mas há, também, entregas que convivem com desafios estruturais que ainda permanecem.
Luiz Cesar Silva – Profº PosDoc Economia e Dr. Administração Pública – Universidade do Porto – PT
Referência Bibliográfica
ARAUJO, A. C. M. S. & PINTO, Henrique T. V. S. O Brasil saiu (novamente) do Mapa da Fome da ONU: algumas explicações. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/ CONLEG/Senado, setembro 2025 (Texto para Discussão nº 351). Disponível em: <www.senado. leg.br/estudos>.
BRASIL. Ministério da Educação. Pé-de-Meia. Brasília, DF: MEC. Disponível em: Ministério da Educação — Pé-de-Meia.
BRASIL. Ministério da Educação. MEC em 2024. Brasília, DF: MEC, 2025. Disponível em: MEC em 2024.
BRASIL. Ministério da Educação. Dados Abertos — Prouni. Brasília, DF: MEC. Disponível em: Dados Abertos — Prouni.
BRASIL. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Governo Federal apresenta dados que indicam redução do desmatamento nos biomas brasileiros. Brasília, DF, 2026.
DIEESE. Salário mínimo no Brasil. 90 anos de história, lutas e transformações (2025). https://www.dieese.org.br/livro/2026/Livro90anosSM_DIEESE_2026_web/index.html?page=177
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Rendimento médio da população brasileira atinge R$ 3.367 em 2025. Rio de Janeiro: IBGE, 8 maio 2026.
Ministério das Cidades. https://www.gov.br/cidades/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/habitacao/programa-minha-casa-minha-vida/bases-de-dados-do-programa-minha-casa-minha-vida
Ministério da Saúde. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/balancos/2024/mais-medicos