Quando as disputas globais chegam às salas de aula, a educação pública perde qualidade, sofre, além de outros aspectos sociais importantes: saúde, produtividade, crescimento etc, que debilitadas e sem a atenção necessária torna-se presa fácil para oportunistas, sem visão nem projetos e seus discursos salvadores.
Redação
São Paulo, 03/08/2026
5.7 Minutos.
As grandes disputas internacionais raramente permanecem restritas aos gabinetes diplomáticos ou às bolsas de valores. Em um mundo profundamente interdependente, decisões tomadas por grandes potências econômicas repercutem sobre cadeias produtivas, investimentos, emprego, inflação e contas públicas de dezenas de países.
Em última instância, essas repercussões alcançam escolas, universidades, hospitais, centros de pesquisa e programas sociais.
Nos últimos anos, o retorno de políticas comerciais mais protecionistas pelos Estados Unidos — especialmente por meio da ampliação de tarifas de importação e da utilização do comércio como instrumento de pressão política — reacendeu um debate importante sobre os limites e os efeitos dessa estratégia.
Defensores dessas medidas argumentam que elas fortalecem a indústria nacional, reduzem dependências estratégicas e protegem empregos. Já seus críticos, entre os quais economistas, representantes do Partido Democrata (ocupados com políticas sociais) e também setores do Partido Republicano, sustentam que uma escalada tarifária pode elevar custos, reduzir investimentos, aumentar a incerteza econômica e, portanto, prejudicar tanto parceiros comerciais quanto os próprios consumidores e empresas norte-americanas.
Fora de casa o fogo queima
O debate ganha contornos ainda mais complexos quando se considera o papel internacional dos Estados Unidos em questões de segurança e política externa. O apoio às ações militares de Israel no Oriente Médio (Palestina, Líbano e Irã, principalmente), em um contexto de forte polarização internacional e de crescente preocupação humanitária, também passou a ser objeto de críticas dentro e fora dos Estados Unidos.
Para diversos analistas, a combinação entre tensões geopolíticas, disputas comerciais e conflitos regionais amplia a instabilidade global e dificulta a cooperação internacional em temas essenciais, como desenvolvimento, ciência, clima e educação.
Para os países em desenvolvimento — muitos deles integrantes do G20, como Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul, México e Argentina — esse cenário representa grandes desafios adicionais. Economias mais vulneráveis às oscilações do comércio internacional costumam sentir rapidamente os efeitos da desaceleração econômica global, da volatilidade cambial e da redução dos fluxos de investimento.
Ainda que cada país possua características próprias e diferentes graus de resiliência, a combinação de menor crescimento econômico e maior pressão sobre as contas públicas frequentemente impõe escolhas difíceis aos governos.
Império raivoso e exigente, vassalos obedientes? Há limites…
Quando a arrecadação diminui ou cresce abaixo do esperado, o orçamento público passa a operar sob maior pressão. Em muitos casos, investimentos em infraestrutura, inovação científica, formação profissional e expansão dos sistemas educacionais tornam-se mais difíceis de sustentar.
Embora a Educação deva ser compreendida como investimento estratégico de longo prazo, a experiência internacional mostra que períodos de desaceleração econômica frequentemente levam ao adiamento de obras. Assim, temos, a redução de programas de pesquisa, ao congelamento de contratações e à postergação de projetos de modernização, desqualificação da merenda escolar etc…
É justamente nesse ponto que economia e educação deixam de ser assuntos separados. A qualidade da educação depende de professores valorizados, escolas bem equipadas, atenção ao aluno, universidades capazes de produzir conhecimento, laboratórios modernos, conectividade digital e políticas permanentes de formação. Tudo isso exige planejamento, estabilidade institucional e capacidade de investimento.
O Brasil conhece bem essa realidade. Ao longo das últimas décadas, diferentes ciclos econômicos influenciaram diretamente a expansão ou a retração de políticas públicas educacionais.
Independentemente dos governos em exercício, momentos de crescimento econômico permitiram ampliar investimentos em infraestrutura escolar, educação profissional, ensino superior e pesquisa científica. Em contrapartida, períodos de crise fiscal frequentemente exigiram revisões orçamentárias que afetaram projetos estruturantes. O futuro se afasta.
O desafio contemporâneo é ainda maior porque a economia do conhecimento tornou a educação um dos principais fatores de competitividade entre as nações. Países que conseguem preservar investimentos em ciência, tecnologia e formação de capital humano durante períodos de instabilidade tendem a recuperar-se com maior rapidez e a ampliar sua capacidade de inovação.
Já aqueles que reduzem continuamente seus investimentos educacionais, para atender cartas de interesses escusos, correm o risco de comprometer sua produtividade futura e aprofundar desigualdades.
Saúde e Educação garantidas: Aumento real das possibilidades
Nesse contexto, organismos internacionais e diversos centros de pesquisa têm reiterado que educação, ciência e inovação não podem ser tratadas apenas como despesas correntes. Elas constituem ativos estratégicos e reservas para o desenvolvimento sustentável, para a competitividade econômica e para a estabilidade democrática.
Ao mesmo tempo, é importante evitar simplificações. Nenhuma política comercial ou decisão geopolítica produz, isoladamente, todos os efeitos observados nas economias nacionais. Ou seja, o desempenho de cada país também depende de fatores internos, como qualidade da gestão pública, ambiente de negócios, políticas fiscais, capacidade institucional e planejamento de longo prazo.
Da mesma forma, diferentes especialistas divergem quanto aos benefícios e aos custos das estratégias protecionistas ou das alianças internacionais adotadas pelos governos. Principalmente as crises geradas em períodos eleitorais.
Entretanto, existe um ponto de convergência que merece atenção: quanto maior a instabilidade econômica internacional, maior tende a ser a pressão sobre os orçamentos públicos e sobre investimentos de longo prazo. E, infelizmente, educação, ciência e cultura frequentemente estão entre as áreas mais sensíveis a essas restrições.
Não tão perto, nem tão longe.
Talvez a principal lição desse momento histórico seja a necessidade de compreender a educação como política de Estado e não apenas como política de governo. Em um ambiente internacional marcado por disputas comerciais, conflitos regionais, rápidas transformações tecnológicas e competição pelo conhecimento, investir em educação deixa de ser apenas uma questão social para tornar-se uma estratégia nacional de desenvolvimento.
As salas de aula podem parecer distantes das mesas de negociação internacional. Na prática, porém, muitas decisões tomadas nessas mesas acabam definindo as condições sob as quais milhões de estudantes aprenderão, pesquisadores produzirão conhecimento e sociedades construirão seu futuro.
Compreender essa relação é um passo essencial para formular políticas públicas mais consistentes e preparar o Brasil para um cenário internacional cada vez mais complexo.
Referências sugeridas
- Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Education at a Glance (edição mais recente). Relatório anual sobre indicadores educacionais e sua relação com desenvolvimento econômico.
- Banco Mundial. World Development Report (edição mais recente). Especialmente os capítulos dedicados a capital humano, produtividade e crescimento econômico.
- Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Global Education Monitoring Report (GEM Report). Publicação periódica que analisa tendências globais em educação, financiamento e políticas públicas.
- IEA USP – A Educação no Brasil 2026 – Focando em análises sobre territórios, diversidades, desigualdades e a construção de políticas públicas a partir de aprendizados sociais reais.
- Universidade e Educação Básica: ensaios Bosianos – Pensamento estratégico e crítico sobre a Educação e seus desafios
Leituras complementares (opcional)
- Why Nations Fail — Uma reflexão sobre instituições, desenvolvimento e prosperidade.
- The Price of Inequality — Análise das relações entre desigualdade, economia e políticas públicas.
- Capital in the Twenty-First Century — Discussão sobre concentração de riqueza, investimento e desenvolvimento.
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