Brasil preso no meio do caminho: por que não conseguimos enriquecer?O problema estrutural da chamada “armadilha da renda média” é a situação em que economias que alcançaram um nível intermediário de renda não conseguem avançar para o grupo de países de alta renda.
Luiz César Silva
Porto, Portugal – 13/08/2026
8 Minutos.
O pressuposto básico para que uma economia continue se desenvolvendo é transformar a estrutura produtiva, migrando de atividades baseadas em commodities, com mão de obra barata (agro) para setores mais intensivos em conhecimento e tecnologia, onde os salários são elevados. De outro modo, o desenvolvimento econômico de longo prazo exige elevar a produtividade e transformar a estrutura produtiva em direção a atividades com maior intensidade tecnológica, conhecimento, inovação e valor agregado. Brasil preso no meio do caminho
A dificuldade em realizar essa transição constitui o cerne da armadilha da renda média. Nesse cenário, a função da indústria é central, pois ela atua como o principal elo entre os elos produtivos de diversos setores da economia (o que chamamos em economia de efeito spillover – transbordamento).
Quando os países conseguem transformar e viabilizar sua estrutura industrial em direção a produtos sofisticados (complexidade econômica, bens high-tech) de maior valor agregado monetariamente, a armadilha é superada. Caso contrário, ocorre a desindustrialização prematura, fenômeno observado no Brasil e em outras economias latino-americanas, durante a adoção do neoliberalismo.
O debate sobre a armadilha associa ao problema a baixa capacidade de inovação, a pouca absorção de tecnologias avançadas e a elevada desigualdade social. Nesses países, o crescimento econômico inicial é impulsionado por fatores como o aumento da mão de obra urbana e a acumulação de capital, mas essa dinâmica se esgota quando a produtividade não cresce e o setor industrial não se diversifica produtivamente. Brasil preso no meio do caminho
Superar essa fase exige investimento em educação, infraestrutura, pesquisa e inovação, além de um ambiente institucional sólido e estável.
Ou seja, o Estado deve assumir a função decisória como indutor do desenvolvimento, criando condições para que o setor privado inove. No processo histórico, as grandes transformações tecnológicas do século XX foram, em grande parte, financiadas por políticas públicas e investimentos estatais em pesquisa, o que demonstra a importância de um Estado empreendedor e estrategista.
A partir dos anos 2000, observa-se em diversas economias o retorno do debate sobre a política industrial, especialmente após a crise de 2008, quando ficou claro que o mercado, sozinho, não seria capaz de sustentar o crescimento de longo prazo. Entretanto, não existe um modelo universal de política industrial, pois cada país tem uma trajetória institucional, social, cultural e produtiva própria.
Portanto, medida que se faz necessária é um ambiente institucional que legitime e sustente as políticas industriais, evitando a simples reprodução de modelos importados. O estudo e a adaptação às condições locais são, portanto, essenciais para o sucesso de qualquer iniciativa.
Ao tratar do caso brasileiro, após um período de crescimento robusto, impulsionado pela industrialização entre as décadas de 1930 e 1980, o Brasil passou a experimentar estagnação e desindustrialização precoce.
A Trava ilusória das commodities
A pauta de exportações brasileira manteve-se, de 1995/2020, concentrada em commodities agrícolas e minerais, enquanto a participação dos produtos manufaturados de média e alta tecnologia declinou. Essa concentração reforça a dependência de setores de baixa produtividade e reduz a complexidade econômica do país. Brasil preso no meio do caminho
O nível de sofisticação produtiva de um país está diretamente relacionado à sua renda per capita e à sua capacidade de crescimento. No caso brasileiro, a perda de complexidade evidencia a regressão industrial e tecnológica, dificultando a ascensão na “escada da renda”.
A desindustrialização prematura no Brasil é resultado de uma série de fatores interligados: valorização cambial decorrente da exportação de commodities, perda de competitividade da indústria nacional, déficit crescente na balança de manufaturados e migração da mão de obra barata para setores de serviços de baixa produtividade (baixos salários).
Esse processo compromete a geração de renda e impede o avanço tecnológico e o desenvolvimento econômico. Em contraste, países que escaparam da armadilha, como Coreia do Sul, Irlanda, Israel, Singapura e China, combinaram políticas públicas de longo prazo, investimentos expressivos em pesquisa e desenvolvimento e forte coordenação entre Estado, universidades e setor privado.
Resultados visíveis
Essas nações conseguiram, por meio de políticas industriais consistentes, construir setores de alta tecnologia e tornar suas economias mais diversificadas produtivamente.
Neste contexto, as políticas públicas exerceram uma função fundamental como instrumentos de superação da armadilha da renda média. Um conjunto de ações e incentivos influencia a alocação de recursos, o comportamento das empresas e o desempenho de setores estratégicos, principalmente, pensando no longo prazo. Brasil preso no meio do caminho
A finalidade dessas políticas foi acelerar as transformações na estrutura produtiva, corrigir distorções de mercado e fomentar a inovação produtiva. As políticas industriais não se limitam ao setor produtivo propriamente dito. Entretanto, abrangem a economia como um todo, influenciando também áreas como o comércio, a infraestrutura e a educação. Assim, devem ser concebidas como políticas de Estado – e não apenas de governo. Para tanto, devem ser orientadas por objetivos de longo prazo e sustentadas por mecanismos permanentes de monitoramento, avaliação e aperfeiçoamento.
Na prática, as políticas industriais implementadas no Brasil entre 2003 e 2014 implementaram o grande marco (PITCE), lançado em 2004 durante o governo Lula. Essa política buscou fortalecer a competitividade da indústria brasileira. Priorizou setores intensivos em tecnologia e conhecimento, como softwares, semicondutores e biotecnologia.
Avanços considerados
A PITCE introduziu um arcabouço institucional, com a criação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). E além, com leis importantes como as Leis da Inovação, de Informática e da Biossegurança. Essas iniciativas consolidaram uma base para a promoção da inovação e para a integração entre universidades, institutos de pesquisa e empresas.
No segundo governo Lula (2008), foi lançada a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), com o objetivo de sustentar o ciclo de crescimento econômico e ampliar os investimentos. Portanto, a PDP estabeleceu metas ambiciosas para o aumento da taxa de investimento, da participação brasileira nas exportações mundiais e dos gastos privados em pesquisa e desenvolvimento.
Também pretendia expandir o número de micro e pequenas empresas exportadoras. A crise financeira internacional de 2008, entretanto, comprometeu a execução das metas e reduziu a capacidade de investimento público e privado. Ainda assim, a PDP marcou a consolidação do BNDES como principal agente de financiamento da política industrial e fortaleceu o diálogo entre Estado e setor produtivo.
Em 2011, já sob o governo Dilma Rousseff, foi lançado o Plano Brasil Maior (PBM), com o lema “Inovar para competir, competir para crescer”. O plano visava aumentar o investimento fixo, ampliar os gastos em P&D, fortalecer cadeias produtivas estratégicas e diversificar as exportações. O PBM combinava medidas horizontais e verticais, incluindo incentivos fiscais, desonerações tributárias e apoio à inovação tecnológica. Brasil preso no meio do caminho
Jogo sujo de interesses escusos.
Apesar dos avanços institucionais, o plano enfrentou dificuldades na execução e não conseguiu reverter a tendência de reprimarização da pauta exportadora. A concentração de crédito subsidiado em grandes conglomerados industriais e a ausência de mecanismos de contrapartida tornaram-se alvos de críticas, alimentando a percepção de que o Estado escolhia “campeões nacionais” sem critérios técnicos.
Essa situação evidenciou a fragilidade institucional do país, marcada pela captura de políticas públicas por interesses privados e pela falta de coordenação e monitoramento eficientes.
O Brasil dispõe de instrumentos e experiências importantes, mas carece de uma estrutura metodológica e institucional capaz de articular as políticas de forma sistêmica e adaptativa.Portanto, para superar esse desafio, a adoção de uma metodologia denominada “Mapeamento por Matriz” é importante.
Essa abordagem busca integrar a visão macroeconômica e setorial, mapeando os desafios, oportunidades e interdependências de cada segmento industrial. A matriz considera variáveis como tipo de tecnologia, grau de inovação, prazos de implantação, impacto esperado e nível de encadeamento produtivo.
Além disso, incorpora a análise do ambiente institucional em quatro dimensões: infraestrutura de ciência e tecnologia, arcabouço regulatório, instrumentos de financiamento e mecanismos de governança. Ou seja, aplicação de uma metodologia que permitirá formular diagnósticos mais precisos, orientar a alocação de recursos e facilitar o acompanhamento das políticas.
Quem puxa para trás
A aplicação do Mapeamento por Matriz possibilitaria ao país direcionar melhor suas políticas industriais e tecnológicas, identificando os setores com maior potencial de sofisticação e os entraves que dificultam sua expansão. Ou seja, a transformação industrial contemporânea exige interdisciplinaridade e coordenação entre áreas antes separadas, como manufatura e pesquisa científica.
Em síntese, a saída do Brasil da armadilha da renda média depende de uma transformação estrutural e institucional. É necessário que o país deixe de ser uma economia imitadora, baseada em commodities e importação de tecnologias. E que se torne uma economia inovadora, com capacidade de produzir conhecimento e tecnologia próprios.
Essa transição requer políticas públicas consistentes, um ambiente institucional sólido e a consolidação de uma cultura de planejamento de longo prazo. Entretanto, o contexto brasileiro é desafiador. O baixo dinamismo econômico, os juros elevados e as fragilidades institucionais dificultam a implementação de políticas duradouras.
Ainda assim, apenas uma ação estatal coordenada, persistente e inovadora poderá remover a “pedra no meio do caminho” que impede o Brasil de retomar sua trajetória de industrialização e alcançar níveis mais elevados de renda e desenvolvimento.
Luiz César Silva – Pós-doutorando em Economia pela Universidade do Porto. Doutor em Administração Pública pela Universidade do Minho (Portugal). Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro – Escola de Governo – FJP. Especialista em Controladoria e Finanças pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Economista pela Universidade Católica de Petrópolis – UCP. Professor de Administração e Gestão Pública no Instituto Politécnico de Bragança, Escola de Administração Pública, Comunicação e Turismo de Mirandela (EsACT-IPB). Lecionou no Departamento de Relações Internacionais e Administração Pública da Universidade do Minho. Atualmente, é membro do Comitê Científico da revista “Public Administration Research: Canadian Centre for Science and Education”.




















Publicar comentário