ELEIÇÕES E EDUCAÇÃO: O QUE AVANÇOU — E O QUE AINDA NÃO? O Brasil melhorou seus indicadores educacionais ao longo das últimas duas décadas. Mas os resultados também revelam uma dificuldade persistente: transformar acesso à escola em aprendizagem, reduzir desigualdades entre territórios e garantir uma trajetória escolar de qualidade até o ensino médio.
Redação
São Paulo, 14 de agosto de 2026
Leitura: 7,6 minutos
Há uma pergunta que deveria atravessar as eleições brasileiras de 2026: o Brasil está avançando na educação? A resposta mais honesta é: sim — mas de maneira desigual, incompleta e insuficiente para o tamanho do desafio brasileiro.
Essa distinção é importante. Dizer que nada avançou é errado. Dizer que os problemas fundamentais foram resolvidos também.
O Ideb, indicador que combina fluxo escolar e desempenho dos estudantes, permite enxergar parte dessa trajetória. Criado em 2007, ele reúne dados de aprovação do Censo Escolar e resultados do Saeb. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o Brasil passou de 3,8 em 2005 para 6,0 em 2023. Nos anos finais, avançou de 3,5 para 5,0. No ensino médio, de 3,4 para 4,3.
Há, portanto, uma evolução objetiva. Porém, os próprios números mostram onde a caminhada começa a perder velocidade. Quanto mais o estudante avança na trajetória escolar, maior parece ser a dificuldade do sistema em assegurar aprendizagem.
E essa talvez seja uma das questões centrais que as eleições de 2026 deveriam colocar diante do país.
O primeiro avanço: colocar mais brasileiros na escola
O Brasil construiu, nas últimas décadas, uma extraordinária expansão do acesso à educação básica. Hoje, entretanto, o desafio mudou de natureza. Ou seja, não basta mais perguntar apenas quantas crianças estão matriculadas.
É necessário perguntar: quantas aprendem? E quantas permanecem? A quantidade das concluentes? Em que condições estudam? E, fundamentalmente, o que sabem quando terminam a educação básica?
A mudança é profunda. Durante muito tempo, o grande problema brasileiro foi o acesso. Agora, o país precisa enfrentar simultaneamente acesso, permanência, aprendizagem, equidade e qualidade.
Isso exige políticas muito mais sofisticadas.
A média nacional esconde muitos Brasis
O número nacional também pode enganar. Em 2023, o Ideb foi calculado para milhares de municípios brasileiros, permitindo observar diferenças enormes entre redes e territórios. O próprio Inep disponibiliza os resultados por Brasil, regiões, estados e municípios.
É possível, portanto, encontrar redes que avançaram muito ao lado de outras que permanecem em situação bastante mais difícil. Essa desigualdade territorial é uma das características mais persistentes da educação brasileira. O estudante brasileiro não encontra uma única escola pública.
Encontra escolas submetidas a condições econômicas, sociais, territoriais e administrativas muito diferentes.
Uma criança que nasce em determinado município pode ter uma experiência educacional completamente diferente daquela vivida por outra criança nascida a algumas centenas de quilômetros.
A média brasileira não conta essa história inteira. Por esta razão a inteligência educacional precisa ir além da média.
O ponto crítico está na passagem para o ensino médio
Os resultados do Ideb tornam visível uma espécie de “declive” na trajetória educacional. O país alcança 6,0 nos anos iniciais, cai para 5,0 nos anos finais e chega a 4,3 no ensino médio. Não é apenas uma sequência de números. É um sinal.
A escola brasileira consegue produzir avanços importantes na primeira etapa da educação fundamental, mas enfrenta dificuldades maiores quando precisa sustentar aprendizagem, engajamento e permanência durante a adolescência.
O ensino médio concentra problemas conhecidos: desigualdades sociais, abandono, distorção idade-série, dificuldades de aprendizagem, necessidade de conciliar trabalho e estudo e uma relação ainda insuficiente entre formação geral, educação profissional, ciência, tecnologia e projeto de vida.
O país não poderá resolver sua crise educacional se continuar tratando cada etapa isoladamente.
A educação precisa ser pensada como trajetória. O aluno – uma vida
O novo PNE muda a pergunta eleitoral
Há uma novidade decisiva em 2026. O Brasil começa uma nova década educacional com o Plano Nacional de Educação – PNE 2026–2036, instituído pela Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026. O plano tem vigência de dez anos e estabelece objetivos, metas e estratégias para diferentes etapas e modalidades educacionais.
Isso oferece à eleição uma oportunidade rara. Os candidatos não precisam começar a discussão do zero. O país já possui um marco nacional. A questão passa a ser outra:
Quem pretende executar o PNE — e como?
É uma pergunta muito mais concreta. 1)Quanto será investido? 2)Em quais etapas? 3)Quais metas serão priorizadas? 4)Como serão reduzidas as desigualdades regionais? 5)E o enfrentamento a aprendizagem insuficiente? 6) A valorização de professore(a)s e gestores será rigorosamente considerada ? 7)E a ampliação da educação infantil deverá considerar os avanços tecnopedagógicos (metodologias) atualizados? 8)O enfrentamento do abandono no ensino médio se dará de que modo? 9)Como educação, ciência, tecnologia e cultura serão articuladas?
E, sobretudo: Como a sociedade poderá acompanhar os resultados?
Educação não pode ser apenas promessa eleitoral
O debate eleitoral brasileiro costuma apresentar educação como uma sucessão de propostas. Mais escolas, mais vagas, tecnologia, tempo integral, ensino técnico. Mais e melhores professores. Tudo isso torna-se necessário. Entretanto, políticas públicas não se medem pelo tamanho das promessas. Se um candidato a cargo majoritário (executivo: presidente, governador, prefeitos e legislativo: senadores) não apresentar seu programa detalhado, desconfie. Veja seu histórico, seu compromisso com as questões sociais mais importantes. Não só polícia e segurança.
Educação e sua qualidade se medem pela capacidade de produzir resultados verificáveis. E se manifestam com o tempo.
Essa é uma mudança importante para o eleitor. Em vez de perguntar somente o que cada candidato pretende fazer, será preciso perguntar: qual problema pretende resolver? E a linha de partida? a meta? quanto custará? quem executará? quando será avaliado? e o que acontecerá se a meta não for alcançada?
É assim que educação deixa de ser promessa e passa a ser política pública acompanhável, sem esquecer de cobranças quanto a transparência, compliance, acountability, ou seja, os auditáveis.
O estudante deveria ser a unidade de medida
Existe ainda uma mudança de perspectiva que precisa entrar no debate. A educação costuma ser analisada a partir das instituições: Ministério da Educação, Secretarias de estados e municípios, diretorias regionais, escolas, universidades, redes, sindicatos, orçamentos. E mais: programas e indicadores.
Tudo isso é necessário. Contudo, a política educacional existe para uma finalidade maior: formar pessoas.
O estudante deve voltar a ser o centro da análise. Não apenas como matrícula. Como trajetória. Ele entra na educação infantil. Passa pelo ensino fundamental. Chega — ou não — ao ensino médio. Pode ingressar no ensino técnico, ou pode chegar à universidade.
Decide permanecer estudando ao longo da vida, ou pode abandonar a escola. Quer poder retornar, trabalhar enquanto estuda, viver em uma grande capital ou em uma pequena cidade do interior. Ou seja, cada uma dessas trajetórias revela uma dimensão da inteligência educacional brasileira.
O que os candidatos aos cargos eletivos deveriam responder
A eleição de 2026 pode ser uma oportunidade para transformar a educação em um verdadeiro contrato com a sociedade. Não seria necessário inventar dezenas de perguntas, fingir números e ou conhecimento sobre os temas todos. Algumas bastariam e para isto terá ministros ou secretários com suas equipes, em permanente contato com as equipes de outras pastas, como economia, saúde, planejamento etc…
Ele, entretanto, deverá saber e respondera estas colocações: Como o candidato pretende cumprir o novo PNE? Qual será sua prioridade para a primeira infância? Como pretende garantir alfabetização na idade adequada? O que fará para melhorar os anos finais do ensino fundamental? De que modo enfrentará a crise de aprendizagem e permanência no ensino médio?Com quais expedientes pretende reduzir as desigualdades entre redes e territórios? Qual será sua política para professores? Quanto pretende investir por estudante? E a articulação da educação, ciência, cultura, tecnologia e formação profissional?
E uma última pergunta, talvez a mais importante:
Como saberemos, ao final do seu mandato, se deu certo?
Essa pergunta obriga a política a sair do terreno da retórica. O funcionário público que ocupou o cargo por tantos anos tem de dar satisfações à sociedade que votou nele e pagou-lhe os salários e benesses. Ou presta conta ou sofrerá uma devassa dos órgão competentes pelas suas (in)atividades, e será julgado pela sociedade e pela história.
O Brasil avançou sim. Agora precisa avançar melhor.
Os dados não autorizam pessimismo absoluto. O Brasil avançou sim, e crescimento do Ideb desde 2005 demonstra isso. Entretanto, os dados também não permitem triunfalismo. Os resultados dos anos finais e do ensino médio mostram que a aprendizagem continua sendo um enorme desafio. As diferenças entre territórios e redes mostram que o avanço não acontece de maneira uniforme.
E o novo PNE abre uma década em que será possível — e necessário — medir o cumprimento das metas estabelecidas. Por isso, a IE.Br formula as peguntas eleitorais, que não deveriam ser simplesmente: “Quem tem a melhor proposta para a educação?”
Porém, deveria ser:
“Quem apresenta o melhor projeto para que cada estudante brasileiro aprenda mais, permaneça na escola, conclua sua trajetória e tenha condições de continuar aprendendo?”
É uma diferença aparentemente pequena, mas muda tudo, simplesmente porque o Brasil não precisa apenas de uma educação que avance, mas carece de uma educação que reduza as desigualdades enquanto avança.
Precisa de uma educação capaz de transformar crescimento estatístico em aprendizagem real. Precisamos de políticas que sobrevivam às eleições, e de eleitores capazes de cobrar resultados.
Em 2026, portanto, a educação pode ser muito mais do que um item nos programas de governo. Pode ser a régua pela qual o país examina seus projetos de futuro.
Sim, Brasil avançou.
Então, já passou da hora de perguntar: avançou para onde — e quem está ficando para trás?
AEscolaLegal — Revista de Inteligência Educacional, Ciência, Cultura e Desenvolvimento Humano – IE.Br – Acesse os relatórios e acompanhe nossa trajetória.
Fontes: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Ideb e Saeb; Ministério da Educação; Plano Nacional de Educação 2026–2036, Lei nº 15.388/2026.




















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