…O desafio dos pesquisadores é preservar sua disposição de construir o futuro sem aceitar que a espera se torne uma condição permanente…
Afonso Peche Filho
Campinas, 04/10/2026
4.4 Minutos
Há uma forma de esperança que permanece mesmo quando os sinais de mudança são escassos. Ela acompanha quem continua trabalhando, preservando conhecimentos e formando pessoas, embora não consiga identificar no horizonte uma decisão capaz de modificar suas condições de existência. É uma esperança que resiste, mas procura onde se apoiar.
Para pesquisadores que aguardam uma ação política favorável à reorganização da pesquisa pública no Estado de São Paulo, essa imagem pode traduzir uma experiência profundamente inquietante.
A esperança torna-se vaga quando o futuro é anunciado sem que os caminhos para alcançá-lo sejam definidos. Fala-se em valorização da ciência, inovação e desenvolvimento, mas o pesquisador precisa reconhecer essas intenções em condições concretas: equipes, continuidade de financiamento, manutenção de estruturas, renovação de competências e perspectivas institucionais. Entre o reconhecimento verbal e a decisão administrativa pode abrir-se um intervalo prolongado. É nesse intervalo que a esperança perde contornos.
A pesquisa científica depende de uma relação particular com o tempo. Um experimento pode exigir anos; uma série de observações, décadas; a formação de uma equipe, sucessivas gerações. A capacidade de interpretar um solo, acompanhar uma bacia hidrográfica ou compreender o comportamento de uma cultura agrícola resulta de conhecimentos acumulados, confrontados e transmitidos.
Quando essa continuidade se fragiliza, a espera deixa de ser apenas um desconforto pessoal: passa a envolver a conservação de uma capacidade pública de compreender e agir.
Por isso, reorganizar a pesquisa exige conhecer aquilo que se pretende reorganizar. Organogramas e indicadores administrativos oferecem informações necessárias, mas insuficientes. É preciso compreender as relações entre pessoas, laboratórios, campos experimentais, coleções, registros e problemas sociais. Uma estrutura científica contém vínculos que nem sempre aparecem nos documentos de gestão. Alterá-la sem reconhecer esses vínculos pode comprometer justamente as capacidades que se deseja fortalecer.
Nesse cenário, a esperança dos pesquisadores pode assumir uma dimensão dolorosa. Espera-se que a relevância do trabalho seja percebida antes que suas condições de continuidade se desfaçam. E que o conhecimento acumulado seja considerado antes da dispersão das equipes. Espera-se que a experiência profissional encontre oportunidades de transmissão. O pesquisador permanece comprometido com um futuro que depende, em parte, de decisões sobre as quais possui pouca influência.
Essa espera também comporta uma contradição. A dedicação que mantém uma instituição funcionando pode tornar menos visíveis suas dificuldades. Quando profissionais compensam carências com esforço pessoal, improvisação e compromissos que ultrapassam suas atribuições, preservam atividades essenciais. Contudo, essa capacidade de sustentação pode alimentar a impressão de que as condições existentes são suficientes. A instituição continua entregando resultados, enquanto consome suas reservas humanas e materiais.
Explorar as possibilidades, não as pessoas
Seria injusto interpretar toda espera como passividade. Há pesquisadores que encontram nela uma maneira de proteger experimentos, manter vínculos e evitar que dificuldades presentes encerrem possibilidades futuras. Entretanto, a esperança precisa adquirir expressão pública. Precisa tornar compreensíveis as consequências das escolhas institucionais e mostrar por que a continuidade da pesquisa interessa à sociedade. O que está em questão ultrapassa a trajetória de uma categoria profissional: envolve a capacidade de responder a problemas específicos, sejam agrícolas, ambientais, sanitários e/ou sociais.
Uma ação política favorável deve oferecer à esperança elementos verificáveis: diagnóstico consistente, participação das equipes, prioridades justificadas, recursos e compromissos de continuidade. Também precisa assegurar espaço à pesquisa básica, cujos resultados nem sempre correspondem aos prazos do mercado ou do governo, mas ampliam as possibilidades de conhecimento das gerações seguintes.
A esperança vaga começa a encontrar direção quando a decisão pública reconhece que a ciência necessita de permanência, diversidade e confiança institucional.
Até lá, o desafio dos pesquisadores é preservar sua disposição de construir o futuro sem aceitar que a espera se torne uma condição permanente. Esperar por uma política favorável à ciência é legítimo. Fazer dessa espera um destino institucional significa deixar o futuro depender de uma promessa que nunca encontra data para começar.
Afonso Peche Filho – Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.




















Publicar comentário