O que uma educação democrática deveria ensinar ao eleitor quando ele precisa escolher entre projetos, trajetórias políticas, resultados concretos e candidatos submetidos a investigações e acusações graves?
Redação
São Paulo, 03/10/2026
13 Minutos.
Durante muito tempo, a política brasileira pareceu caber em frases de efeito. Uma delas ganhou força por sua capacidade de simplificar o debate: “não tenho bandido de estimação”. Lembra? A expressão pretendia estabelecer uma regra aparentemente elementar: o eleitor não deveria proteger o político de sua preferência diante de suspeitas ou crimes atribuídos a adversários.
A frase, entretanto, tornou-se pequena diante da realidade. Não porque a ideia deva ser abandonada, mas porque o Brasil passou a exigir do cidadão algo mais trabalhoso do que slogans. Investigações policiais, ações do Ministério Público, decisões judiciais, condenações, operações financeiras, documentos e informações produzidas por órgãos oficiais compõem hoje um ambiente no qual o eleitor precisa distinguir opinião de fato, propaganda de evidência, acusação de condenação e narrativa política de acontecimento comprovado.
É nesse terreno que a educação democrática ganha dimensão política sem se transformar em propaganda partidária. Educar para a democracia significa ensinar o cidadão a perguntar não apenas o que um candidato fez, o que entregou, para quem, com quais recursos e quais resultados produziu, mas também por que ele próprio pretende escolher esse candidato. A responsabilidade embutida no seu modo de ser, pensar e agir.
Quais motivos orientam sua decisão?
Que valores reconhece naquela candidatura? Que experiências pessoais ou coletivas influenciam sua escolha? Trata-se de uma aproximação de sentidos, de uma identificação com determinada visão de sociedade, ou de um julgamento construído a partir de fatos, resultados, propostas e trajetórias?
A identificação pode aproximar o eleitor de um candidato; o julgamento exige que ele examine as razões dessa aproximação. É uma diferença importante. O cidadão pode reconhecer-se em um discurso, compartilhar determinados valores ou defender determinada concepção de país. Nada disso dispensa, entretanto, a pergunta seguinte: os fatos sustentam a escolha que estou fazendo?
Por isso, a educação democrática deveria ajudar o eleitor a investigar: o que esse candidato já fez? O que efetivamente entregou? Para quem (meia dúzia de amigos investidores, ou para o país, a cidade, o estado)? Com quais recursos (origem, caminhos, destino)? Que resultados produziu? O que pretende continuar? O que pretende mudar (reforma, demolição ou construção)? Como pretende financiar suas propostas? Que relação mantém com as instituições? Como reage quando uma investigação alcança pessoas próximas ou o próprio grupo político? Respeita decisões judiciais que contrariam seus interesses?
No fundo, votar também significa julgar.
Não julgar pessoas segundo simpatias ou antipatias (intestinos, emoções) mas avaliar atos, escolhas, projetos, resultados e compromissos. A democracia oferece ao cidadão o direito de escolher livremente; a educação pode ajudá-lo a compreender as razões pelas quais escolhe.
Essa tarefa tornou-se particularmente importante diante das eleições de 2026. O país chega à disputa majoritária depois de acontecimentos que ultrapassaram a competição convencional entre governo e oposição.
Em setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão na Ação Penal 2668, que tratou da tentativa de golpe de Estado. A decisão também condenou outros sete integrantes do chamado Núcleo 1 da denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República. Em novembro daquele ano, o STF declarou o trânsito em julgado das condenações e determinou o início do cumprimento das penas.
Esse fato integra a história política recente do país. Não se trata mais de uma acusação em investigação, mas de uma condenação judicial definitiva, embora a defesa tenha posteriormente apresentado revisão criminal, instrumento previsto para questionar condenações já definitivas. O próprio STF registra essa situação processual.
Entre fatos, opiniões, discursos e leviandade
A questão educacional aparece justamente aí. O eleitor pode concordar ou discordar das decisões do Supremo, assim como pode considerar excessiva, insuficiente ou adequada determinada pena. O que não deveria desaparecer no debate é a distinção entre uma opinião sobre a decisão e o fato de que a decisão judicial existe, foi fundamentada e produziu efeitos jurídicos.
O caso de Eduardo Bolsonaro (filho do antigo presidente e deputado federal que predeu o cargo por fugir para os EUA e ausência prolongada) acrescenta outro elemento. Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF o condenou, por unanimidade, a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. Segundo a decisão, ele atuou para interferir no julgamento da ação penal que envolvia seu pai. A Corte também declarou sua inelegibilidade decorrente da condenação colegiada. Sobre ele também pesam fortes acusações de traição aos interesses do país (em declarações próprias nas redes sociais) e fuga de capitais.
Novamente, o ponto central para o eleitor não consiste em transformar uma decisão judicial em slogan eleitoral. Não é apenas a sua opinião. A realidade consiste em conhecê-la, compreender o que foi julgado e decidir que importância esse fato terá em seu próprio julgamento político.
Situações, mais fatos e estágio avançado
Flávio Bolsonaro, senador pelo PL e candidato à Presidência em 2026 por partidos da direita aparece como investigado no inquérito relacionado ao “financiamento do filme Dark Horse“, produção sobre a vida de seu pai (preso). O ministro do STF André Mendonça autorizou (sob pressão) a abertura da investigação depois de pedido da Polícia Federal, com manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República.
A apuração examina um repasse de aproximadamente R$ 61 milhões feito pelo ‘empresário’ das finanças Daniel Vorcaro para a produção. Flávio nega irregularidades e afirma que os recursos tinham finalidade privada e foram destinados à produção do filme.
A diferença jurídica precisa permanecer intacta: investigação não é condenação. O eleitor pode considerar uma investigação relevante para seu julgamento político sem afirmar que o investigado cometeu o crime que está sendo apurado. Essa distinção não enfraquece a informação; ao contrário, protege sua credibilidade.
A própria investigação do caso Dark Horse ganhou novos contornos. Em setembro, o STF tornou público material relacionado ao inquérito, enquanto outra investigação, conduzida sob relatoria do ministro Flávio Dino, apura possíveis desvios de recursos públicos destinados a entidades relacionadas à produção.
Ao acusado o ônus das provas
A Agência Brasil informou que a Polícia Federal investiga diversos crimes, entre eles: peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios no caso envolvendo recursos públicos. Trata-se, novamente, de apurações em curso, não de condenações definitivas.
Esse cuidado com os estágios da investigação deveria fazer parte da alfabetização política contemporânea. Uma democracia não pode trocar a presunção de inocência pela presunção de culpa. Da mesma maneira, a presunção de inocência não exige que o cidadão ignore uma investigação formal. Ela exige que cada informação receba o peso jurídico que efetivamente possui.
Não foi assim quando o então Juiz e atualmente senador Sergio Moro arquitetou e conduziu, com absoluta parcialidade, a condenação do atual presidente Luiz Inácio “Lula” da Silva, retirando-o estrategicamente da corrida eleitoral e sua provável reeleição em 2018, abrindo caminho para Jair Bolsonaro (um dos articuladores do ‘impeachment’ de Dilma Roussef).
Medidas tardias terão eficácia sem retroagir?
O problema torna-se ainda mais complexo quando crime organizado, política e processo eleitoral aparecem no mesmo campo de investigação. Em junho de 2026, o Ministério Público Eleitoral “recomendou aos partidos que adotassem mecanismos internos” para prevenir a infiltração de organizações criminosas nas estruturas partidárias.
Entretanto, as declarações do presidente anterior Jair (atualmente preso) Bolsonaro de que as milícias seriam bem vindas em seu governo, não podem ser esquecidas. O Rio de Janeiro é o estado que concentra a maior parte de suas ações, e onde foram eleitos seu filhos aos cargos que hoje os sustentam.
No caso das atuais medidas sugeridas estão a apresentação de certidões criminais, a análise de histórico e patrimônio dos pré-candidatos e a comunicação às autoridades diante de indícios de financiamento ou interferência de grupos criminosos. Entretanto, nota-se, pelos registros do MPF e outros órgãos de justiça que é justamente o PL, partido que apoia e lançou a candidatura de Flavio ao cargo de presidente da república,ser o partido com o maior número de pessoas envolvidas em crimes e sendo investigadas e processadas.
Lero lero contra fatos, ainda cola?
Não se trata, portanto, de uma preocupação inventada por um lado da disputa política. O próprio Ministério Público reconhece o risco e organiza mecanismos institucionais para enfrentá-lo. Em abril, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou que o Ministério Público Eleitoral atuaria para impedir a infiltração de organizações criminosas no processo eleitoral e preservar a liberdade de escolha do eleitor.
A informação também ganhou uma dimensão internacional. Em 1º de outubro, a Advocacia-Geral da União acionou a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República para investigar um suposto financiamento estrangeiro de ações contra o Supremo Tribunal Federal.
A iniciativa ocorreu depois da divulgação de informações sobre um possível repasse de US$ 1 milhão a projetos de organizações da sociedade civil no Brasil. A existência de investigação, porém, não permite afirmar antecipadamente que todas as suspeitas serão comprovadas ou que determinado candidato participou delas. Mas, se tem fumaça, fogo há.
Aqui aparece outra lição necessária. O cidadão precisa conseguir sustentar simultaneamente duas ideias: uma denúncia merece investigação; uma investigação precisa de provas.
Nem o entusiasmo político nem a rejeição ideológica deveriam alterar essa regra.
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), em sua publicação Brasil: desafios para a inteligência — edição 2026, também identifica a desinformação eleitoral, a manipulação tecnológica e a erosão da confiança nas instituições como desafios relevantes. O documento chama atenção para campanhas destinadas a desacreditar o sistema de votação e observa o potencial de inteligência artificial generativa e deepfakes e false flags para fabricar declarações e conteúdos audiovisuais capazes de interferir no debate eleitoral.
É nesse ambiente que a educação democrática precisa sair da abstração.
O cidadão informado não precisa acreditar em uma campanha nem aceitar automaticamente a narrativa de um governo ou de uma oposição. Precisa saber consultar documentos, identificar a origem de uma informação, reconhecer o estágio de uma investigação, confrontar versões e verificar se uma afirmação possui respaldo documental.
Precisa, sobretudo, aprender a fazer uma pergunta que raramente aparece nos debates eleitorais: por que eu quero votar neste candidato?
A resposta pode nascer da identificação. Alguém pode reconhecer em determinada candidatura valores que considera importantes, uma trajetória social semelhante à sua, uma determinada concepção econômica, uma visão sobre educação, saúde, segurança, trabalho ou direitos. Pode ainda votar pela expectativa de mudança ou pela defesa da continuidade.
Nada disso representa um problema em si.
O problema aparece quando a identificação elimina o julgamento.
Uma pessoa pode sentir-se representada por um candidato e, ainda assim, investigar sua trajetória. Pode compartilhar seus valores e discordar de determinadas decisões e reconhecer realizações de um governo sem transformar o governante em objeto de devoção. E pode rejeitar uma oposição sem considerar aceitável qualquer comportamento de quem está no poder.
A educação democrática deveria formar justamente esse espaço intermediário entre a identificação e a crítica. É nele que o eleitor pergunta: o que foi prometido? O que foi realizado? Quem recebeu os benefícios? Quanto custou? Que resultados apareceram? O que permaneceu inconcluso? e aquilo que merece continuidade? O que precisa mudar?
A continuidade, por sua vez, não significa continuidade automática de pessoas. Uma política pública pode apresentar resultados que justifiquem sua manutenção, mesmo que o eleitor prefira outro governante. Da mesma maneira, uma mudança de governo não precisa significar a destruição de tudo aquilo que o antecessor construiu, como foram os 4 anos do pai do senador em disputa.
Essa distinção entre pessoa, partido, governo, política pública e Estado constitui uma das tarefas mais importantes da educação política.
A quem interessa a desinformação
No Brasil, essas categorias frequentemente se confundem. O adversário passa a representar todo o mal; o aliado, todo o bem. O debate transforma-se numa espécie de campeonato moral no qual cada grupo procura o escândalo do outro. A informação deixa de servir à compreensão e passa a funcionar como munição.
O resultado aparece numa contradição curiosa: quanto mais informação circula, mais difícil pode se tornar distinguir aquilo que foi comprovado daquilo que apenas foi repetido. E a ideia poe trás disso talvez seja: apagar a memória ou escondê-la numa nuvem de confusão mental a fim de reinventar a “verdade”. Vide Joseph Goebbels o ministro da propaganda nazifascista na Alemanha hitlerista.
A educação ajudará muito a interromper esse circuito.
Um eleitor preparado não precisa receber do professor, do jornalista, da universidade ou de qualquer autoridade uma ordem sobre em quem votar. Precisa receber instrumentos para decidir. Deve aprender a consultar fontes primárias, comparar programas, verificar históricos administrativos, compreender indicadores, acompanhar processos judiciais e distinguir uma declaração política de um documento oficial.
Também precisa compreender uma regra elementar da República: ninguém recebe autorização para governar acima da lei.
Essa regra vale para presidente, governador, senador, deputado, prefeito, vereador ou qualquer outro agente público. Vale para quem possui origem popular ou trajetória econômica privilegiada. Vale para quem está no governo e para quem está na oposição. A origem social pode explicar uma trajetória; não substitui a avaliação de seus atos nem o caráter do candidato.
Por isso, talvez seja possível atualizar aquela velha frase que dizia “não tenho bandido de estimação”. Seria mais útil se fosse: não tenha fatos de estimação.
Não proteja uma evidência porque ela prejudica seu candidato. Não rejeite uma investigação porque ela alcança seu partido. Não aceite uma acusação porque ela confirma sua preferência. Não transforme condenação em propaganda nem investigação em sentença.
Examine. Compare. Pergunte. Julgue. E, sobretudo, pergunte a si mesmo por que o está escolhendo.
Essa talvez seja uma das contribuições mais importantes que a educação pode oferecer à democracia brasileira diante de uma eleição que colocará em disputa não apenas cargos, mas diferentes concepções sobre o Estado, a democracia, os direitos individuais, as políticas públicas e o papel das instituições.
Não há perfeição. Mas aceitar o pior é dançar na beira do abismo
O eleitor não precisa encontrar um candidato perfeito — a política raramente oferece esse luxo. Precisa conhecer as alternativas disponíveis, examinar suas trajetórias, confrontar seus projetos com suas realizações e avaliar os compromissos que apresentam diante da sociedade e das instituições.
Para isso, terá de estudar e de desconfiar da frase pronta. Olhar para o que foi feito, para aquilo que não foi realizado e para aquilo que está sendo prometido. Deverá perguntar quem se beneficia, quem paga, quem executa e quem fiscaliza. Ou seja, também acompanhará as instituições quando elas investigam os adversários e quando investigam os aliados.
Terá, enfim, de compreender que votar não encerra a cidadania. O voto apenas entrega ao cidadão uma das ferramentas mais poderosas de participação democrática.
Depois dele, começa a responsabilidade de acompanhar.
É nesse ponto que Aprender a Votar deixa de ser apenas o nome de um dossiê e assume uma tarefa maior: lembrar que democracia não se sustenta apenas pela existência periódica das urnas. Mas, ela depende de cidadãos capazes de avaliar informações, reconhecer resultados, questionar governos, fiscalizar opositores e defender as regras que permitem a todos disputar o poder.
Porque, no fim das contas, votar não significa apenas escolher alguém. Enfim, significa saber por que se escolhe — e aceitar que essa escolha precisa sobreviver ao confronto com os fatos.




















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