Passado, presente e futuro são os eixos sobre os quais estruturamos nossa compreensão do mundo. Como forças ativas, eles interferem diretamente em nossas decisões, exigindo de cada geração o desafio de equilibrar os saberes que herdamos e aqueles que precisamos renovar para dar sentido à vida.
Felipe Labruna

São Paulo, 21/09/2026
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Há uma tentação recorrente em toda nova geração: acreditar que aquilo que veio antes de si é, por definição, ultrapassado. A juventude chega ao mundo diante de instituições, costumes, crenças e valores que não escolheu e, justamente por isso, pode enxergá-los mais facilmente como obstáculos do que como heranças.
Em alguns momentos, essa desconfiança é necessária. Em outros, transforma-se em uma espécie de cegueira: a incapacidade de reconhecer que nem tudo o que é antigo é obsoleto e que nem tudo o que é novo é necessariamente melhor.
A Literatura há muito tempo transforma o conflito entre gerações em matéria de reflexão sobre a condição humana. Dois personagens particularmente expressivos são Ievguêni Bazárov, de Pais e Filhos (1862), do russo Ivan Turguêniev, e André, de Lavoura Arcaica (1975), do brasileiro Raduan Nassar. Embora pertençam a universos históricos, sociais e estéticos muito distintos, ambos se insurgem contra uma ordem recebida. E é justamente aí que suas trajetórias se tornam interessantes para além de uma simples disputa geracional.
Bazárov é o jovem que desconfia de quase tudo aquilo que não possa ser submetido ao crivo de sua razão. Médico em formação, materialista e autodenominado “niilista”, o rapaz confronta a aristocracia, a religião, a estética e as convenções de seu tempo. Sua força está justamente na recusa em aceitar ideias apenas porque foram transmitidas.
“Há algo intelectualmente saudável nessa atitude: uma tradição não se legitima simplesmente por ser muito antiga”.
Porém, Turguêniev introduz uma fissura nessa autoconfiança: o mundo não se deixa reduzir inteiramente às categorias pelas quais Bazárov pretende dominá-lo. O afeto, o desejo e a vulnerabilidade humana revelam os limites de uma razão que imaginava ter encontrado respostas definitivas. O problema que se apresenta ao personagem não é questionar o passado, mas acreditar que contestá-lo bastava.
André, em Lavoura Arcaica, percorre caminho diferente. Sua revolta não nasce da confiança na ciência, mas de uma experiência visceral de sufocamento diante da autoridade paterna, da religião, da disciplina familiar e de uma ordem ancestral que pretende organizar todos os aspectos da existência. O protagonista foge do lar rural porque não consegue mais habitar o mundo de rigidez, castidade e moral imposto por seu pai.
Embora trilhem caminhos distintos de negação, Bazárov e André partilham do mesmo destino irônico reservado àqueles que se julgam invulneráveis: ambos levam severas rasteiras da própria vida. A prepotência de acreditarem que poderiam pairar acima das contradições humanas (ignorando o imponderável, as paixões e o peso das relações) acaba lhes cobrando um preço altíssimo.
A realidade, em sua crueza indomável, não se curva às certezas científicas do estudante russo e nem à fuga libertária do jovem lavrador. Aos dois, o mundo apresenta a conta de sua arrogância, provando que a ruptura radical não oferece imunidade contra os abismos da própria natureza humana.
Se Bazárov pretende desmontar intelectualmente as certezas de seu tempo, André quer escapar delas com o próprio corpo. Para ambos, porém, surge o mesmo dilema: o que fazer com uma herança que já não reconhecemos como nossa? É nesse ponto que o conflito de gerações deixa de ser apenas uma disputa entre pais e filhos e passa a ser um problema educacional.
Isso não significa transformar a educação em mecanismo de conservação. Pelo contrário! Uma de suas funções mais importantes é permitir que o indivíduo perceba que aquilo que recebeu poderia ter sido diferente e que algumas estruturas herdadas produziram injustiça, exclusão e sofrimento.
A diferença entre questionar uma herança e acreditar não precisar de nenhuma fica ainda mais evidente quando ampliamos o olhar para além da tradição czarista que formou Bazárov ou do patriarcado rural de André. Em meus livros Levante do Sul: decolonialidade latino-americana (2023) e Direito Além do Ocidente: Matriz Hegemônica, Sul Global e Constitucionalismo Decolonial (2026), procurei investigar como determinadas formas de conhecimento foram historicamente apresentadas à América Latina como universais, enquanto outras foram marginalizadas ou consideradas inferiores.
A crítica decolonial acrescenta uma provocação importante ao debate: às vezes, aquilo que chamamos de “tradição” é o resultado de uma seleção histórica na qual algumas vozes foram preservadas e outras silenciadas.
É preciso então questionar qual passado estamos preservando e quem teve o poder de defini-lo. O estudante precisa aprender, simultaneamente, a desconfiar do mundo que recebeu e da própria certeza de que pode substituí-lo inteiramente. A primeira forma de desconfiança produz pensamento crítico; a segunda, humildade intelectual.
A escola pode ser o lugar onde essa distinção é aprendida, instruindo o jovem a formular três perguntas diante de qualquer herança: o que merece ser preservado? O que precisa ser transformado? O que deve ser abandonado? Responder a essas indagações exige o diálogo entre História, Filosofia e Literatura e, sobretudo, o exercício de escutar perspectivas diferentes da nossa. Uma boa educação não forma repetidores de um mundo imposto e nem destruidores convictos.
Felipe Labruna – Doutor em Direito pela PUC-SP, professor universitário e escritor.




















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