A carregar agora
×
Não infantilize o eleitor brasileiro.

Não infantilize o eleitor brasileiro

Num estilo fluído, claro, aberto, mesmo para os não habituados aos textos psicanalíticos, Rita pondera sobre o mal-estar em que a sociedade brasileira foi lançada desde a eleição de 2018. Ao mesmo tempo ela aponta caminhos possíveis – mas não definitivos – para operar o enfrentamento do mal-estar que nos acomete hoje.

Antes de seguir para o segundo turno é fundamental que a gente pare de infantilizar o eleitor brasileiro. Sei que é duro aceitar, mas ele não votou no Bolsonarismo (na extrema-direita, no PL) por não saber quem são seus líderes e o que isso significa, mas exatamente pelo que eles são e defendem. Sobre a onda fascista na Alemanha, William Reich disse certa vez: “As massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo”.

Nesse momento de angústia, nossa primeira reação é não querer ver essa verdade e procurar culpados internos e externos, inclusive tendemos ao auto-flagelo. São reações humanas e justas, mas não são os melhores parceiros para a luta. São afetos tristes, como diria Spinoza.

Eu passei cerca de 4 anos chafurdada nas redes e grupos bolsonaristas, e os entrevistando. Nunca escutei nenhum deles dizendo que votam na “direita” (é assim que se nomeiam) por justiça social, universidade pública, direitos humanos, SUS, aumento do salário mínimo, aposentadoria, proteção do meio ambiente ou dos povos indígenas, direito a diversidade de gênero, credos e opiniões, defesa de minorias.

Razão da hipocrisia

Mesmo quando falam de liberdade ou democracia, eles os defendem como privilégio para eles e suas ideias; não para todos, como nós defendemos. Querem liberdade para serem autoritários, racistas, machistas e fascistas.

livroritamassas Não infantilize o eleitor brasileiro

Esses eleitores não estão interessados em políticas públicas, de proteção social ou qualquer outra ação para a coletividade, mesmo que se beneficiem delas. Querem ficar ricos o suficiente e pagarem tudo de forma privada. Olhem a volta de vocês! Reparem os influenciadores campeões de seguidores e essa gente que emergiu na nossa bolha ‘progressista’ depois da proibição das Bets.

Reparem o discurso dos pastores neopentecostais que fazem sucesso, os ídolos do futebol. O tema central dessa gente é: ostentação. Ostentam sucesso, bens e prosperidade financeira. Depender do Estado, de políticas públicas, de cotas, de acessibilidade é sinônimo de fracasso para eles.

O Uberizado não quer aposentadoria, direitos trabalhistas, proteção social, porque acredita que será abençoado por Jesus e ficará rico; não precisará de nada disso.

Isso significa que a propaganda do PT ou das esquerdas não sofre de ineficiência, ao contrário, ela mostra com muita eficácia seu projeto de país, e que não vem de hoje. Só que essa massa que caiu nas graças da extrema-direita não quer esse projeto, mesmo que seja em benefício deles.

Só não pode vacilar

Eles preferem acessá-lo burlando o sistema do que pela via do direito garantido. Querem ser ricos individualmente, não há projeto coletivo ou de país em jogo. Daniel Vorcaro, o banqueiro fradulento, por exemplo, não é um problema nessa visão de mundo, é um ídolo, que talvez tenha cometido o erro de ser pego e preso.


Psicologia das Massas e Bolsonarismo.
Editora E-galaxia
.
Rita Almeida Psicanalista – @ritacaalmeida

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política