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Educação - Reconstruir o país começa antes da ruína

Educação – Reconstruir o país começa antes da ruína

O que Japão, Coreia do Sul e outros países ensinam sobre educação, soberania e capacidade de reconstrução…E o que o Brasil ainda precisa compreender, mesmo considerando sua juventude e tamanho geográfico. Nem falaremos sobre a China.

Há países que conheceram a destruição em escala nacional e, ainda assim, conseguiram reconstruir não apenas suas cidades, suas fábricas e suas estradas, mas também a capacidade de imaginar o próprio futuro.

O Japão saiu derrotado da Segunda Guerra Mundial. Duas cidades haviam sido atingidas por armas nucleares; grandes áreas urbanas estavam destruídas; a economia enfrentava escassez e desorganização. A ocupação americana impôs profundas mudanças políticas e institucionais. Ainda assim, a reconstrução japonesa não pode ser explicada apenas pela presença dos Estados Unidos (que limitou impositivamente as forças armadas japonesas a categoria de guarda civil).

A trajetória que levou o país asiático à rápida expansão econômica nas décadas seguintes envolveu também fundamentalmente uma sociedade que já possuía ampla experiência educacional, razoável capacidade industrial, com formação técnica e uma longa tradição de investimento em conhecimento.

A Coreia do Sul oferece outro caso extraordinário — e talvez ainda mais próximo de uma situação de devastação quase absoluta.

A Guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, praticamente destruiu as bases industriais que começavam a existir. No pós-guerra, o país dependia fortemente de ajuda externa. Documentos do Banco Mundial registram que a ajuda americana chegou a representar mais de 40% das despesas governamentais coreanas durante a década de 1950. Portanto, seria historicamente incorreto apagar a importância desse apoio. Obviamente, não exista almoço grátis. Nem que seja frio e sem sal.

Entretanto, existe uma diferença fundamental entre receber ajuda e construir uma nação. A ajuda pode fornecer recursos. Não pode, sozinha, produzir uma sociedade capaz de transformar recursos em conhecimento, tecnologia, instituições e produtividade. Seguramente, é justamente aí que a educação entra.

A riqueza não começou nas fábricas

A experiência sul-coreana é reveladora porque a transformação econômica foi acompanhada pela expansão extraordinária da escolarização. O Banco Mundial registra que a introdução da educação obrigatória nos anos 1950 ajudou a criar uma população escolarizada que posteriormente seria fundamental para a industrialização. A OCDE, por sua vez, identifica a expansão educacional como elemento decisivo do desenvolvimento econômico coreano.

Isso muda consideravelmente a maneira de olhar para o desenvolvimento, não?! Uma fábrica pode ser construída em poucos anos. Uma universidade pode ser erguida em alguns anos. Uma estrada pode atravessar um território em uma década. Porém, uma sociedade capaz de produzir engenheiros, professores, pesquisadores, técnicos, médicos, gestores, artistas, cientistas e trabalhadores especializados precisa de uma construção muito mais longa.

A escola é uma espécie de infraestrutura invisível, e quando funciona, seus resultados aparecem em lugares que nem sempre são imediatamente associados a ela. Ou seja, na indústria, na saúde, na administração pública, na pesquisa científica, na agricultura, na tecnologia, na cultura e na capacidade de uma sociedade solucionar problemas.

Porém, quando fracassa, o prejuízo também se espalha por todos esses setores e pelas gerações vindouras.

O caso japonês desmonta uma explicação simplista

O Japão apresenta uma característica particularmente interessante. Sua destruição na Segunda Guerra Mundial foi gigantesca. Entretanto, o país não começou sua reconstrução intelectual do ponto zero. Havia uma trajetória anterior de escolarização, industrialização e formação técnica.

A modernização japonesa vinha desde o século XIX. A educação havia acompanhado a industrialização e contribuído para formar uma força de trabalho capaz de operar em sistemas produtivos cada vez mais complexos. O desenvolvimento do capital humano continuou no pós-guerra.

Depois da guerra, o Japão passou por reformas profundas durante a ocupação americana. Houve mudanças no sistema político, econômico e educacional. Sob a tutela militar e restrições impostas pelos EUA, os administradores, empresários, engenheiros, pesquisadores e trabalhadores japoneses participaram ativamente da reconstrução.

A economia cresceu rapidamente. Segundo estudo publicado pela OCDE, o produto nacional real japonês cresceu cerca de 10% ao ano entre 1955 e 1970, acompanhado por investimentos em ciência, tecnologia, educação superior e formação profissional. Eis um número marcante, uma distinção importante de causar inveja (e receio) aos poderosos neoimperialistas “restantes” da segunda metade do século XX.

De fato, países europeus como Inglaterra, França, Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda, Espanha e Portugal foram cada um, a sua medida, grandes colonizadores e imperialistas, pelo menos desde os 1800.

A influência americana existiu. Mas, a reconstrução japonesa não foi americana.

Assim como a ajuda americana à Coreia foi relevante, mas a transformação coreana tampouco pode ser reduzida a uma operação de assistência externa. Nisso reside a diferença básica entre ajuda e dependência. E talvez aqui esteja uma das questões mais importantes para países como o Brasil.

Uma nação pode receber dinheiro, equipamentos, empréstimos, tecnologia e assistência internacional. Tudo isso pode ser decisivo em determinados momentos. Entretanto, existe uma questão adjunta e anterior da maior importância: o que o país consegue fazer com aquilo que recebe?

A Coreia do Sul recebeu aproximadamente US$ 13 bilhões em ajuda entre 1945 e 1995, segundo a OCDE. A organização também registra que o país, com o tempo passou de receptor de ajuda a integrante da OCDE e, posteriormente, a país doador. Essa trajetória não transforma a ajuda externa em detalhe irrelevante. Pelo contrário: mostra que recursos externos podem acelerar processos.

Mas mostra também algo mais interessante. O objetivo de uma política de desenvolvimento não deveria ser perpetuar o país como receptor. Deveria ser construir capacidade para que ele deixe de precisar dessa condição. Sair de devedor a credor, segundo a bula capitalista que rege o sistema predominante. Percebe o gigantismo que essa diferença representa?

O Brasil não precisa copiar ninguém

Comparações internacionais não servem (nem serviram) para transformar Japão ou Coreia em modelos perfeitos. Ambos possuem problemas, contradições e desigualdades. A própria OCDE aponta, no caso sul-coreano, problemas relacionados à pressão educacional, ao peso da educação privada e ao excesso de concentração no ensino superior. A questão é bem outra.

O que esses países demonstram é que educação não pode ser tratada como despesa residual de governo.

Quando um país decide reconstruir sua economia sem reconstruir simultaneamente sua capacidade intelectual, técnica e científica, ele pode até crescer por algum tempo. Mas permanece dependente de conhecimentos produzidos em outros lugares. Compra máquinas, softwares. Importa equipamentos, medicamentos, tecnologia. Importa especialistas.

E, frequentemente, importa até as ideias sobre como organizar sua própria educação. Assim, não há soberania completa quando uma sociedade precisa importar permanentemente as soluções para seus próprios problemas.

A escola que produz dependência

Existe, portanto, uma dimensão política da educação que não se resume à disputa partidária. Uma escola pode ensinar alguém a obedecer muito bem. Pode formar pessoas capazes de executar procedimentos, repetir conceitos e cumprir ordens. Mas uma sociedade complexa precisa de outra coisa: pessoas capazes de compreender sistemas, identificar problemas, produzir conhecimento e criar soluções.

Essa diferença aparece quando comparamos sociedades que investem em educação como capacidade nacional com aquelas que tratam a escola apenas como serviço social obrigatório. No primeiro caso, educação conversa com ciência, indústria, agricultura, saúde, tecnologia, cultura, defesa, infraestrutura e administração pública.

No segundo, cada setor tenta sobreviver isoladamente. A consequência é conhecida: o país pode ter universidades, escolas técnicas, pesquisadores e empresas, mas não consegue transformar suficientemente esse conhecimento em capacidade econômica e social.

O estudante não é o ponto final. É o começo.

Uma criança alfabetizada torna-se um jovem capaz de estudar matemática com maior autonomia. Esse jovem pode chegar à formação técnica ou universitária. Pode tornar-se professor, engenheiro, pesquisador, médico, artista, empresário, servidor público ou trabalhador especializado. Cada uma dessas pessoas, por sua vez, produz alguma coisa para a sociedade.

É assim que uma população escolarizada deixa de ser apenas um conjunto de indivíduos e passa a constituir capacidade nacional. E foi precisamente essa transformação que acompanhou, em diferentes momentos históricos, o desenvolvimento de sociedades industrializadas.

E então chegamos ao Brasil

O Brasil não foi destruído por uma guerra mundial dentro de seu território. Não teve suas grandes cidades arrasadas por bombardeios. Não precisou reconstruir fisicamente uma economia devastada por conflito armado. Tomou choques, isso é fato. Só, ainda assim, convive há décadas com uma espécie de reconstrução que nunca termina.

Reconstruímos escolas. Reformamos escolas. Criamos programas. Mudamos currículos. Trocamos sistemas de avaliação. Criamos plataformas digitais. Distribuímos equipamentos. Lançamos políticas. Anunciamos novas políticas. E, frequentemente, continuamos discutindo os mesmos problemas fundamentais.

Talvez porque ainda não tenhamos tratado a educação como aquilo que ela realmente é: uma infraestrutura estratégica de longo prazo. Sim, é certo também que ela não é uma panaceia, a única solução absoluta para todos os casos.

É preciso entender definitivamente que não existe indústria sofisticada sem formação técnica. Assim, como não teremos ciência e pesquisa forte sem educação básica consistente. Não existe inovação sem pesquisadores. Sem estas bases não se cria democracia substantiva sem cidadãos capazes de compreender informação, argumentos e interesses.

Não existe soberania tecnológica sem gente capaz de produzir tecnologia. E não existe desenvolvimento sustentável sem conhecimento.

O verdadeiro investimento não aparece imediatamente

Eis os óbvios argumentativos, falaciosos e enganosos desde a origem individualista dos seus projetistas e produtores. “Mamãe, eu quero uma coroa de louros!” Uma escola construída aparece. Um computador entregue aparece. Surge uma obra inaugurada. Um programa com placa e cerimônia vai pra telinha, entre as luzes do palco.

Mas, o conhecimento produzido por uma criança que começou a aprender hoje é diferente. Ele demora. É silencioso. Não cabe facilmente em uma fotografia oficial, e por isso mesmo seja tão frequentemente subestimado.

O professor que ensina uma criança a ler não está simplesmente cumprindo uma obrigação administrativa, ele participa de uma cadeia que, vinte anos depois, produzirá uma pesquisadora, um médico, uma engenheira, um escritor, uma técnica agrícola, um programador ou uma professora.

A educação trabalha com um tipo peculiar de tempo: o tempo do futuro. A unica régua para medi-lo é a confiança no investimento certo.

Reconstruir é mais do que levantar paredes

Japão e Coreia do Sul não oferecem ao Brasil uma receita pronta. Entretanto, oferecem algo muito útil: uma pergunta histórica. Como sociedades submetidas a guerras, ocupações, pobreza, escassez e profundas rupturas conseguiram construir capacidade suficiente para mudar sua posição no mundo?

Seguramente, é o tipo de resposta que não cabe em uma única variável.

Houve ajuda externa. Houve circunstâncias geopolíticas, acionaram os mercados internacionais que viram ali grandes possibilidade de investimento e retorno garantido. Decisões econômicas controversas foram tomadas. Erros e acertos. Governos autoritários predominaram em determinados períodos. Surgiram empresas, trabalhadores, universidades, pesquisadores e instituições. Houve erros e acertos.

Mas existe um elemento que atravessa essas experiências: a construção sistemática de capacidade humana. E essa talvez seja a parte mais incômoda da comparação. Não basta perguntar quanto dinheiro um país recebeu. O que se busca a esta questão é predominante uma resposta a: o que ele foi capaz de aprender, produzir e transformar com os recursos que recebeu.

A diferença entre uma nação que permanece dependente e outra que conquista capacidade própria pode estar exatamente aí. Sem esquecer que deve-se pensar sempre em interdependência.

A escola como projeto de país

Talvez o Brasil precise parar de perguntar somente quanto custa educar e passe a questionar quanto custa não educar. Quanto custa importar tecnologia que poderíamos desenvolver, como aquelas fechaduras de mercado – ninguém entra,ninguém sai… Quanto custa uma pesquisa que não chegou a ser feita, ou foi feita lá fora porque aqui dentro não temos capacidade?

Você sequer imagina os custos de um professor que abandona a profissão? Ou o custo de um jovem que não encontra na escola as condições para desenvolver suas capacidades? E uma universidade subfinanciada? Uma geração inteira aprendendo menos do que poderia?

Essas contas raramente aparecem juntas nos orçamentos públicos. Mas elas existem.

Japão e Coreia do Sul demonstram, cada um à sua maneira, que reconstrução econômica é inseparável de reconstrução humana. A assistência estrangeira pode ajudar; o comércio pode acelerar; o capital financiar; a tecnologia ser transferida. Mas nenhum país inteligente e que preza sua soberania terceiriza sua capacidade de pensar – ninguém come internet.

Um país pode, no máximo, terceiriza temporariamente parte dela. Depois precisa construí-la dentro de casa. É por isso que a educação talvez seja a forma mais profunda de infraestrutura nacional. Estradas ligam territórios, e sabemos construí-las. Os portos e aeroportos ligam os mercados. As ferrovias ligam cidades, e as redes digitais ligam informações. Entende o conceito primordial de interdependência? Não é trocar banana, soja, carne do boi pelo. Esse limite é uma burrice, ainda que seja importante.

A educação liga uma geração ao futuro.

E, quando funciona de verdade, faz algo ainda mais importante: permite que uma sociedade deixe de esperar que alguém venha reconstruí-la. Ela própria aprende a reconstruir-se. Vamos esperar pela catástrofe? Escolhe-la?

Jornalista profissional (bacharel em Comunicação Social), professor, escritor, licenciado em língua e literatura portuguesa - pósgrad em Ciência Política